Aniversário de crianças - Alexandre Gois de Victor

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26/10/2009

Aniversário de crianças - Alexandre Gois de Victor

26/10/2009
Aniversário de crianças - Alexandre Gois de Victor

Publicado no Diario de Pernambuco - 26.10.2009

alexandregoiss@urbanovitalino.com.br

Tenho receio que os amigos que me são queridos deixem de me querer bem, passem a me querer menos, ou o que é pior, passem a fingir que me querem bem porque passaram a me querer meio mal. Podem até chegar ao ponto de parar de convidar minha filha para os aniversários dos seus. Peço que compreendam o espírito, as manias e as mandingas desse pobre dublê de cronista. É que adoro os meus amigos e os seus filhos, mas confesso que aniversário de criança... Pensem bem. A cerveja é sempre quente (pecado mortal e inaceitável) e os garçons passam na mesa apenas em anos bissextos. A coxinha, não raro, é servida morna e cheia de óleo, o que a faz nunca passar daquela consistência física de meio mole. De cada dez empadas apenas duas contêm azeitona, e ainda assim quase que completamente desprovida de sua carnosidade. Nada incomum, para a felicidade das crianças, é uma senhora quebrar um molar, cujo pedaço será cuidadosa e discretamente colocado noseu porta moedas durante uma falsa ida ao banheiro. Noutras empadas, eventualmente, aparece um camarão que veio a óbito em decorrência da velhice. Sabe-se disso por que o bichinho de tão pequenininho certamente foi acometido por uma doença degenerativa que o fez diminuir e acentuar, mais ainda, a sua forma helicoidal. O cachorro-quente, que é frio, vem cada vez mais em formato miniatura. É enrolado num guardanapo que lhe cobre quase todo o corpo, e por isso fica parecendo mais com um beduíno que mantém de fora, unicamente, parte de sua cabeça. Na primeira mordida o sujeito logo sente aquele sabor acre de colorau adquirido no mercado de São José. Pelo amor de Deus. Façamos um apelo aos homens e mulheres de bem: Não usem colorau nos cachorros quentes! Ninguém merece. Esqueçamos dos comes sacrificantes e bebes entediantes. É que ainda tem aqueles grupos de animadores infantis que fazem covers. A menina que imita a Hannah Montana normalmente se acha... Não recebe ninguém antes da apresentação. Exige camarim (quefica no banheiro da casa de recepções) com toalhas brancas e bandeja de frutas da época. Alegando ter mais dois shows ainda no mesmo dia, não costuma ficar por mais um minuto além do contratado. Quando termina o serviço entra na Kombi dirigida por sua mãe e dana-se para outros bairros para, responsavelmente, cumprir sua dura agenda e brindar seus fãs com o ar de sua graça. E não venham me dizer que esse cenário só acontece em festas menos afortunadas ou abastadas. Tenho olho clínico. Quando conseguem me arrastar para esse tipo de evento costumo ficar atento para ver se o enredo se repete. E se repete. Mas como a alegria de pai e mãe é ver a felicidade de sua cria, aí é que reside o alento. É que bom mesmo é para a molecada. Esses sim suam em bicas depois de ir dezessete milhões, quatrocentos e vinte e seis mil, cento e oitenta e duas vezes no mesmo brinquedo. E vão a todos. Tomam quase onze litros de coca-cola, chutam a canela do pobre do palhaço (os meninos) e, às vezes, mordem um projeto de desafeto no braço ou nas costas, na exata hora em que o outro ia subir no pula-pula. Voltam para casa como os que regressam de uma maratona no deserto. No colo, já vêm dormindo desde a garagem. Mas há também outros que aproveitam o evento. As babás por exemplo. Geralmente levam bolsas com cavidade larga, tipo bocão, e de profundidade bastante razoável. O acessório, por vezes, é sugerido por suas patroas. Seis ou sete lembrancinhas já são o suficiente. Ao chegar em casa e esvaziar o produto da subtração, a patroa, com a generosidade que lhe é habitual, e quando está de bom humor, pode até dar um chiclete ploc e um batom garoto, derretido, para a babá. Bem, espero que saibam que nada mais faço neste texto do que exercitar uma personagem. Claro que esses aniversários, às vezes, são até bonzinhos. Mas é melhor morrer queimado.
 

 

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