Amargura - Arthur Carvalho

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08/09/2010

Amargura - Arthur Carvalho

08/09/2010
Amargura - Arthur Carvalho
Publicado no Jornal do Commercio - 08.09.2010

Na minha crônica Tarde demais, termino transcrevendo verso de um vate recifense cujo nome não me lembrava. Acabo de receber e-mail de Liliana Falangola, timoneira do Catamarã Maurício de Nassau, que costuma singrar as águas mansas do Capibaribe, ao cair das tardes dos sábados, com o nome do seu autor, Tupan Sete, e o poema completo: "Aqui, o corvo-azul da suspeição/ apodrece nas frutas violetas,/ e a febre escusa, a rosa da infecção,/ canta aos tigres de verde e malhas pretas./ Lá, no pelo de cobre do alazão,/ o bilro de ouro fia a lã vermelha./ Um pio de metal é o gavião/ e são mansas as cabras e as ovelhas./ Aqui, o lodo mancha o gato pardo:/ a lua esverdeada sai do mangue/ e apodrece, no medo, o desbarato./ Lá, é fogo e limalha a estrela esparsa:/ o sol da morte luz no sol do sangue,/ mas cresce a solidão e sonha a garça."

Não tive o prazer de conhecer Tupan Sete, mas sem ser crítico literário, ouso dizer que sua lírica, eivada de amargura, sofre influência do bardo paraibano de minha admiração, Augusto dos Anjos, também de admiração do escritor Luiz Carlos Albuquerque. Amargura e sensibilidade próprias dos poetas.

Estive relendo esta semana Os lusíadas, e vejo que Camões passou muito tempo na África e na Índia, queixando-se, em versos, das dificuldades para sobreviver, do azar e das injustiças que sofrera. Certa vez, um amigo o encontrou perdido e liso em Moçambique e o ajudou a voltar para casa. E pensar que ele é o maior poeta da língua portuguesa!

Desgostoso de tudo, Michel de Montaigne escolheu curtir uma espécie de exílio. E Torquato Tarso trilhou uma via-crúcis de perambulações em hospitais e cadeias, até receber atenção do mundo artístico com o poema Rinaldo. O nosso Cervantes resistiu a três ferimentos a bala, tendo um deles aleijado sua mão esquerda. Vendido como escravo na Argélia, cumpriu cinco anos de cativeiro. E esse soldado autodidata de existência atribulada, influenciou Defoe, Dostoievski e Joyce. Dom Quixote permanece como uma das poucas obras-primas da literatura a alcançar a eternidade. Perguntaram a Jorge Amado o que havia de novo no romance universal, ele respondeu Dom Quixote.

Lope de Vega, um dos autores preferidos de Renato Carneiro Campos, abandonou os estudos para ir atrás de uma mulher casada, uma "beleza remota", que teria numerosas sucessoras. Sua saga amorosa foi variada e polêmica. Cafetão, foi preso e condenado ao desterro por escrever ataques ferozes contra a bela atriz Helena Osório, que lhe dera o fora. Terminou fugindo com uma menina de dezesseis anos.

De acordo com relatos contemporâneos, Francisco de Quevedo tinha natureza impulsiva e tendência à perversidade, e ganhou fama pelos comentários cáusticos a respeito da aparência das pessoas. Apesar de ter um pé torto e miopia, agredia outros homens, compondo sátiras devastadoras ou paródias.

Uma dica: terminei ontem A vida é sonho, de Calderón de La Barca, e estou convencido de que Percy Bysshe Shelley tem razão ao considerá-lo o maior dos modernos dramaturgos depois de Shakespeare.
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