Ainda Carnaval - Nilzardo Carneiro Leão

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22/02/2010

Ainda Carnaval - Nilzardo Carneiro Leão

22/02/2010
Ainda Carnaval - Nilzardo Carneiro Leão

Publicado na Folha de Pernambuco - 22.02.2010

Passados os dias de folia, vale recordar o que foi bom e o que restou do CARNAVAL de 2010.

Também comentar o que não deve ser repetido no próximo ano: aquele Galo mirrado colocado na Ponte Duarte Coelho, chamado pelos foliões de Garerê (mistura de Galo com Saci Pererê), com uma perna só, sem as “esporas afiadas”, um micro-bico e sem a “crista de coral”, formoso que era pelo símbolo de vigor, peito imponente, asas fortes, cauda com penas multicoloridas, símbolo do Clube de Máscaras tal como desejado por Enéas Freire, seu criador. Convém, assim, esquecer “aquilo” que colocaram na Ponte, o anti-Galo da Madrugada

Da mesma forma que no RJ os carnavalescos podem trazer para a Sapucaí uma grande águia a movimentar suas asas, abrir seu bico, por que o Galo do Recife não pode mostrar a sua grandiosidade, lançando os sons de seu canto que serão levados pelo Capibaribe para o oceano, para o mundo? Um Galo com “pernambucanidade”, exibindo a raça dos “bravos guerreiros”, que podem estufar o peito a cantar “Pernambuco, imortal, imortal.”

Se um “rebolation”, pobre de sonoridade, pode permitir o remelexo e o rebolamento, se as escolas de samba mantêm o “samba no pé” e se os cariocas fazem ressurgir as “bandas de bairro”, renascendo o autêntico e simples Carnaval do RJ, com suas marchinhas e suas fantasias, o pernambucano tem muito mais do que isso: tem a multiplicidade de seus ritmos, tem a alegria de seu povo a mostrar nas ruas Só ele pode apresentar um maestro Forró com sua orquestra, que bem poderia sair  nos dias de Carnaval  arrastando pelas ruas a multidão na “onda” do frevo. O “Escuta Levino”, que se apresenta na quinta-feira da semana pré-carnavalesca é um bom exemplo. O “Pitombeira”, o “Elefante de Olinda”, o “Ceroula” saem pelas ruas, orquestras no chão levando multidões.

Deixem o povo “frevar” e fazer o passo livre, solto, de cada um. Temos uma multiplicidade de cores, de tons e de sons, temos cantores e compositores que trazem o frevo no sangue. Temos novas orquestras e maestros, temos jovens bonitas e alegres trazendo a batida do maracatu, temos a individualidade de cada com suas fantasias, a irreverência sadia, temos grupos familiares fantasiados pelas ruas. Esse, o autêntico Carnaval de Pernambuco.

Além disso tudo, bom mesmo é chegar à Praça Maciel Pinheiro e aguardar, fantasiado, a saída do Bloco da Saudade. A expectativa, a chegada dos “perseguidores”, alinhando-se na calçada para seguir  até o bairro do Recife.

Flabelo pronto para as evoluções, orquestra e coral, o primeiro frevo de bloco, o seu próprio hino: “E o Bloco da Saudade assim recorda tudo o que passou.” E vem um dos momentos mais emocionantes: o ingresso na Rua da Imperatriz. Indescritível: “Vou relembrar o passado, do meu Carnaval de fervor...Na Rua da Imperatriz, eu era muito feliz, vendo os Blocos desfilar...”. E depois, “Nós somos madeira, de lei que cupim não rói.” Ao final da rua, na subida da Ponte, “até o rio parou de correr....só para ver meu bloco de recordações.” E assim segue o alegre Bloco da Saudade até o bairro do Recife, a mostrar que “O Recife tem, o Carnaval melhor do meu Brasil.”

O que trás imensa alegria é, no dia seguinte, ver toda a casa vestida de Carnaval: “escapulários” na sala, chapéus na mesa, adereços nos quartos. No terraço,  gola e cabeleira de maracatu, um chapéu de couro igual ao de um cangaceiro. Como se estivessem todos a dizer: não fique triste, para o ano tem mais...

 

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