A vingança dos suínos - Arthur Carvalho

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10/03/2010

A vingança dos suínos - Arthur Carvalho

10/03/2010
A vingança dos suínos - Arthur Carvalho
Publicado no Jornal do Commercio - 10.03.2010

O que mais nos encantava naquele sítio era seu riacho de água doce, cristalina e fria, onde nadavam cardumes de tilápia e acará-bandeira. Ao entardecer, os pássaros se refugiavam nos galhos mais altos do jenipapeiro para se agasalhar e dormir. As jandaias faziam grande alarido assim que pousavam na copa da palmeira próxima ao cajueiro, e João da Mata, antigo morador do lugar, dizia que elas andavam assim, em bandos, para espantar os predadores. E ali tinha muito sariguê, gavião e moleque com badoque caçando passarinho.

A roça do português era uma vasta plantação de rosas brancas e hortênsias lilases, mas quem se atrevesse a roubá-las se arriscava a levar tiro de sal nas nádegas da espingarda soca-soca do dono. Que criava porco num chiqueiro vizinho à sua choupana e quando subia para comprar bacalhau, feijão e azeite doce na venda do espanhol Toscano, sua roupa cáqui e chapéu de pano ensebado, tresandando a azedo de tanta banha, exalavam um cheiro acre que impregnava o interior da mercearia, expulsando os fregueses.

Ele abatia os porcos com o aço frio de um punhal longo e afiado, que transpassava o coração do animal e armazenava a banha nos barris de chope do quintal. Enquanto Toscano, torcedor do Galícia Esporte Clube, pesava o bacalhau e o feijão, o português dava longas baforadas no Trocadero de fumo barato, poluindo e empestando ainda mais o ambiente.

O português não cumprimentava ninguém, nem os balconistas de Toscano. E proibia sua esposa, Maria Eulália, que nunca trocava a saia rendada de chita vermelha e a blusa de madapolão, e sua filha Inês, de 16 anos e tranças louras, meias compridas de algodão branco e sapato marrom de fivela, de pisarem na venda de Toscano. Ele costumava sangrar os porcos pela madrugada, ouvindo fado em disco de 78 rotações, numa vitrola velha, de agulha e manivela, a todo volume. O grunhido lancinante dos bichos acordava a vizinhança e ouvia-se o grasnar de gansos a distância. Uma figura tremebunda.

Um dia nos revoltamos com sua perversidade (ele matava galinha torcendo o pescoço da penosa), reunimos a turma toda do bairro e resolvemos pregar-lhe uma peça. Furtamos dez mamões verdes da horta do padre Torrend - que mantinha uma pensão de estudantes defronte da nossa casa e fabricava a loção Amaralina, contra a calvície - raspamos a polpa e furamos "olhos", "nariz" e "boca" em cada um. Levamos os mamões para a chácara do português à meia-noite e acendemos um toco de vela no interior de cada mamão. Vistos de longe, os mamões pareciam caveiras com nariz, olhos e boca cuspindo fogo. Para completar o cenário fúnebre, Geraldinho Coelho, evangélico convicto, deixou, entre as "caveiras", um esquife de madeira podre, com a tampa de compensado aberta e um boneco de pano dentro, as mãos cruzadas ao peito, enquanto Roberto Koch gemia como alma penada.

Quando menos esperávamos, o tiroteio comeu no centro, saindo do cano duplo, de ferro, da papo-amarelo do lusitano, um estampido de lascar, espalhando chumbo e parafuso enferrujado pra todo lado, clareando a escuridão. O jeito foi fugir se arranhando nos arames farpados e troncos das cajazeiras. Os cachorros latiam, a mulher e os filhos do português pediam socorro, apavorados com a visão das "caveiras", o caixão mortuário destampado, os cavalos relinchavam, empinando as patas, escoiceando os mourões. Os porcos e bacorinhos quebraram as tábuas do curral e dispararam em alta velocidade, pisoteando e destruindo o roseiral e as hortênsias.

Nunca mais o português matou porco em sua granja, e o Corredor da Vitória voltou a dormir em paz, embalado pelos cânticos das mães de santo e o rufar cadenciado dos atabaques dos candomblés do Vale do Canela, saudando Oxóssi.

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