A vida é feita da matéria dos sonhos - Gilberto Marques

Notícias

11/03/2010

A vida é feita da matéria dos sonhos - Gilberto Marques

11/03/2010
A vida é feita da matéria dos sonhos - Gilberto Marques

Publicado no Diario de Pernambuco - 11.03.2010

advgilbertomarques@hotmail.com

O imortal José Mindlin morreu. Deixou, no entanto, uma história bonita. Para minha surpresa, a mídia contou-a e recontou-a, no decorrer do velório. Quando eu era menino, adolescente, jovem, uma coisa me comprazia: ouvir alguém dizer "seu pai é um homem honesto". Saía vaidoso, estalando os dedos para acompanhar a música que isso dava aos meus ouvidos.

Pois bem, Mindlin morreu. No testamento, ficou o benefício que se estende ao país inteiro: a doação de sua biblioteca à Universidade de São Paulo, que engloba a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, criada em 1827, junto com a nossa, da Praça Adolfo Cirne.

Parece que a doação não foi pacífica. Ele insistiu várias vezes até a Universidade aceitar a dádiva incomum. Aliás, a especialidade passa inclusive pelo acervo e sua riqueza bibliográfica. Juntou oitenta anos, livro por livro e, certamente, alguns milênios repousam na história que a biblioteca encerra. E, mesmo assim, foi difícil convenceras autoridades do benefício da recepção. Que coisa!

Apesar de ser advogado de formação, empresário bem sucedido, membro da Academia Brasileira de Letras, o bibliófilo não era famoso como muitos cantores de rock, boxers, jogadores de futebol e até algumas cafetinas e seus respectivos filhos. Na época da ditadura, passou por um cargo público importante do governo de São Paulo. Quando os porões começaram a fabricar mortos, ele renunciou à Secretaria de Cultura. Talvez por isso só em 2006 tenha tido acesso à Academia Brasileira de Letras, aos 92 anos de idade.

Muita gente importante foi ouvida pelos noticiários, de rádio, TV e jornal. Uma coisa me chamou atenção: vários disseram "Ele era um homem honesto". A imagem de um Mindlin já macróbio, de voz trêmula e rouca, passeou nas telas. Isso não impediu, todavia, a percepção da prevalência dos sonhos. William Shakespeare junto com Miguel de Cervantes e Machado de Assis moravam no mesmo endereço que ele, certamente. Insistiu na doação, previu a digitalização dos livros, numa divulgação bem mais ampla. Em síntese, transformou o sonho pessoal em realidade material e benfazeja. Como disse Shakespeare em tempos idos: "a vida é feita da matéria dos sonhos, a tênue matéria dos sonhos".

Sempre vivi de sonhos: me formar; ter filhos sadios; educá-los; vê-los crescer. Sonhei com a Constituinte e os Direitos Humanos consagrados na Carta. Eleições Diretas para tudo. Pobre tratado com dignidade, sem fome. Democracia política; com o fim do FMI; um presidente da gente, vindo do meio do povo. Hoje, assustado, lembro de Rui e sua "vergonha de ser honesto". De Ascenso Ferreira e o poema do gaúcho: "Riscando os cavalos! Tinindo as esporas! Través das cochilhas! Sai de meus pagos em louca arrancada! - Para quê? - Pra nada!". A gente morre. O sonho permanece. A vida é feita da matéria dos sonhos.



 

Voltar