A Rua do Padre Inglês, que não era Padre - Ramos André

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18/04/2009

A Rua do Padre Inglês, que não era Padre - Ramos André

18/04/2009
A Rua do Padre Inglês, que não era Padre - Ramos André
Um dos casos curiosos de ruas do Recife, cujo nome não corresponde à realidade, é a Rua do Padre Inglês, última à direita da Avenida Conde da Boa Vista. O Padre não era Padre. Era Pastor.

A mudança da Corte portuguesa de Lisboa para o Brasil, em 1808, com a abertura dos portos às nações amigas, e o tratado de Lord Stanford, 1810, garantiu aos ingleses, entre outros privilégios, poderem ter suas igrejas e cemitérios, pois eram evangélicos, anglicanos. No Recife, começaram a realizar seus cultos em 1814 na Rua do Hospício,47, com o capelão G. Tuckins, substituído em 1821, pelo Rev. John Penny. Em seu pastorado, que durou dez anos, foi requerida licença para construir o templo anglicano, permitida com a condição de não ter aparência externa de Igreja, cruz e carrilhão. Foi inaugurado em 1838, na esquina da Rua da Aurora com a Rua Formosa (Conde da Boa Vista), no pastorado de Austin. O Reverendo Charles Adye Austin, cujo pastoreio da colônia inglesa se prolongoupor 25 anos, era casado com Sarah Jane Austin, de quem teve 9 filhos. À chegada fixou residência na travessa que ligava o Caminho Novo (B. Vista) a Fernandes Vieira. O povo, por essa circunstância, começou a chamar-lhe de Beco do Padre Inglês, posteriormente Rua do Padre Inglês. Nome que não correspondia à realidade e hoje é totalmente inadequado. A Rua deveria chamar-se Rua dos Batistas. Cerca de um terço de sua área pertence à denominação (ordem) batista. Nela estão sediados o Seminário de Educação Cristãs (SEC) e o Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil (STBNB), do lado esquerdo; e uma vasta área de residências de professores e alunos do Seminário, do lado direito.

O Seminário, Faculdade de Teologia, é uma das "meninas dos olhos" dos Batistas do Brasil, como o foi dos missionários que o fundaram no dia 1º de Abril de 1902, na Rua do Caminho Novo, 106 (B.Vista, 592). Em 1915 foi adquirida a Chácara do Barão da Soledade, onde o Seminário e o CAB tiveram suas instalações próprias. Em 1945 o Seminárioiniciou a construção do seu campus nos "fundos" da Chácara, na rua incorretamente chamada de Padre Inglês, onde permanece até hoje, e cuja influência ultrapassa as fronteiras locais.

O STBNB foi o primeiro Seminário Batista organizado no Brasil, foi o primeiro a criar cursos de Mestrado e Doutorado, o primeiro a conceder aos seus professores o "ano sabático", de quatro em quatro anos, para estimular a produção literária; o primeiro a criar os departamentos de Música e Educação Religiosa, 1958; o primeiro a experimentar o regime de educação mista, o primeiro a admitir mulheres no curso de teologia, o primeiro seminário a conceder o grau de Mestre em Teologia a uma mulher no Brasil, Maria Betânia Melo Araújo, 1976, hoje professora da casa. Possui uma das melhores bibliotecas especializadas do Recife, 50.000 volumes, aberta ao público, o seu Coral Sinfônico tem percorrido o Brasil, Europa e USA, divulgando a música sacra e o folclore nordestino. Em 1950 teve o primeiro órgão eletrônico do Recife. Além de Pastores, músicos e educadores para as igrejas, a contribuição educativa do S. B.T.N.B., ao longo destes 107 anos de sua existência tem sido de grande projeção. Missionários para o exterior, historiadores, professores e reitores universitários, educadores, escritores, advogados e políticos como, v.g., o atual senador Magno Malta, fazem parte de um "exército" de humanistas que honram o nome do Brasil. Por isso, foi-lhe concedido o título de utilidade pública pela Lei estadual 6072, e pela Lei Municipal 9535. Está na hora de se corrigir o equívoco e chamar aquela artéria de Rua dos Batistas, ou Rua do Seminário Batista. Correspondia à verdade e fazia-se justiça.


Ramos André é advogado(jramosandre@ig.com.br).
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