
Notícias
12/11/2009A queda do muro de Berlim: eu vi - Nilzardo Carneiro Leão
12/11/2009
Publicado na Folha de Pernambuco - 13.11.2009
1989. Em minhas andanças como estudioso de direito processual, lá estava eu na RFA, a convite do Governo da Alemanha, mais precisamente do Ministério da Justiça, juntamente com o Dr. João Benedicto de Azevedo Marques, um paulista, Presidente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, do qual eu também fazia parte. Seria um Seminário de Processo Penal, do qual iriam também participar juristas e professores da Argentina, dentre eles um dos maiores processualistas, o respeitado prof. Julio Mayer. E me foi proporcionado conhecer o funcionamento do Poder Judiciário, Universidades, Institutos de Pesquisas e diversas cidades, dentre elas Berlim, onde fui conhecer o Centro de Dados (que nada tinha a ver com núcleo de informações de natureza política). São salas imensas, algumas com só dois funcionários, com máquinas a funcionar. Dali saem mais de 4.800 informações e certidões diárias (sobre primariedade, para obtenção de empregos, etc).
E tive a notícia: o muro está sendo derrubado! Na véspera, estivera já nas suas encostas, vi as cruzes, muitas, a marcar o local onde os que tentaram fugir “para o lado de cá” foram sumariamente fuzilados. Confesso que senti algo diferente ao ver aquela enorme muralha cortando a cidade de Berlim. Há lugares em que de um lado é a rua da RFA e do outro, da RDA
Não era como a Muralha da China, dos tempos antigos, construída pelas Dinastias para defesa contra ataques de tribos e povos vizinhos, mas um muro com enorme altura e mais três metros de largura, construída para barrar idéias, nem que para isso se tivesse de repartir uma cidade, separar parentes.
De longe, do Brasil, ouvi falar e sabia da existência do muro, mas só quando cheguei junto dele pude perceber seu real e doloroso significado. Fiquei a imaginar as dores e os sofrimentos dos que ficaram de cada lado. Mil imagens passavam pela minha cabeça. E lá estava ele, frio, insensível e agressivo, como símbolo do autoritarismo, de um sistema, do Poder e do mando.
Do lado da RFA, onde me encontrava, todo ele pintado e desenhado, com protestos e apelos de paz; do outro lado, limpo, pintado em amarelo, ainda com soldados da RDA, armados, em cima da muralha, fiscalizando o mais nada. Em verdade, não foi só a queda de um muro: simbolizava toda uma mudança de estrutura de um sistema político, rompida de tal forma que à época, impossível prever-se as consequências. Tudo estava acontecendo com uma velocidade tão grande que não havia previsão sobre o que iria acontecer dentro de uma semana. Os próprios alemães de ambos os lados não conseguiam entender a extensão dos fatos históricos.
Fiquei parado a ver o que estava acontecendo, a observar, analisar comportamentos, fisionomias, condutas. Alguns, com olhares de turista, máquinas à mão, a tudo fotografar. Mas há nos semblantes de outros a impressão de que cada pedaço de pedra arrancado era como se fosse um ato de libertação! De raiva ou vingança! Era um protesto à proporção que suas marretas batiam e rompia a parede. Eu, com um martelo pedido a um jovem, também quebrei como se estivesse a protestar contra a repressão política, em favor da cultura. Um protesto pernambucano, em nome da liberdade e da Democracia. Guardo, até hoje, um pedaço do muro.
À proporção que o muro ia caindo, que vão surgindo os espaços, começa a travessia de alemães de um lado para outro, muitos com lágrimas nos olhos, outros a gritarem histericamente. Senhores, jovens, crianças, com uma alegria como se estivessem construindo um mundo que jamais imaginariam ver.
Os alemães que vinham da RDA, caminhavam como que extasiados com o que viam. As vitrines, os veículos, a multiplicidade de cores das roupas e dos prédios, as avenidas, os enfeites e sons do NATAL, tudo era espanto. Seguiam lentamente, sós ou em grupos, eram facilmente identificáveis pelas roupas grossas (e grosseiras) que vestiam, alguns com barbas por fazer, sapatos pesados, todos iguais, as senhoras e jovens mal vestidas, aparentando não terem trato algum, como se a vaidade e a beleza femininas estivessem embotadas e escondidas. Impressionavam-me seus cabelos, suas mãos, suas unhas maltratadas e sujas.
O governo da RFA passou a dar um auxílio em marcos, o próprio ROTARY passou a fornecer um café pela manhã, que era por todos aceito.
Muito, ainda poderia ser contado sobre um tempo que para mim, como para o mundo, só depois poderia ser medido em sua real significação.
