A leveza profunda - Arthur Carvalho

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03/03/2010

A leveza profunda - Arthur Carvalho

03/03/2010
A leveza profunda - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 03.03.2010

Em seu livro Veneno remédio – o futebol e o Brasil (Companhia das Letras), José Miguel Wisnik diz que, num recente debate com estudantes de letras na USP, o crítico de arte e ficcionista Rodrigo Naves pôs lado a lado, numa boutade cheia de razão, Pelé e Machado de Assis. E acrescenta: "De fato, se a formação da literatura brasileira desemboca em Machado, a do futebol brasileiro desemboca em Pelé". E pergunta: "Quem ousaria compará-los? Quem dirá quem é superior? Driblarei a questão indo diretamente ao ponto: como foram possíveis um e outro?"

Tentando analisar a curiosa e insólita analogia, devemos deixar de lado as condições que a geraram, como se pairassem acima dela, conforme sugere Wisnik, bem como a discrepância aparentemente aberrante da comparação entre o escritor e o jogador de futebol.

Voltemos à velha tese das influências endógenas e exógenas, segundo a qual e mal comparando, o criminoso é o produto da soma de fatores endógenos (genéticos e hereditários) e exógenos (meio ambiente), o que vale também para escritores, artistas e atletas.

Se Edson Arantes do Nascimento tivesse nascido no Japão, Groenlândia ou Turquia, jamais seria Pelé. Segundo ele mesmo confessa, "aprendeu" a jogar bola vendo Zizinho jogar, a quem chama de seu ídolo e a quem sempre considerou o maior jogador do mundo em todas as épocas. Em casos como esse, não é raro o discípulo superar o mestre, como aconteceu com Pelé e Zizinho, por questões, digamos, atléticas. Zizinho era mais franzino e baixo e pertencia a uma geração de craques brasileiros refratários à preparação física. Pelé tinha todos os atributos físicos inerentes aos negros campeões olímpicos, inclusive impulso e arrancadas extraordinárias provenientes de um centímetro de altura a mais nos calcanhares (fatores endógenos). Zizinho, valente e cerebral, tinha poder de liderança maior que Pelé. Sempre capitaneou os times e selecionados que defendeu. Pelé levava esporro de Zito para se ligar na partida.

Contrariando a tese de que pessoas humildes geram filhos medíocres, Machado de Assis, filho de pintor de parede com uma doméstica, é, segundo Susan Sontag, o maior escritor latino-americano. Maior que Gabriel García Márques, Carlos Fuentes, Júlio Cortázar e Jorge Luís Borges. Não há análise científica, portanto, que justifique o fenômeno. São mistérios da genialidade e da vida porque, assim como os mitos, gênio é gênio, não tem explicação. Machado, autodidata, compensou a falta do diploma universitário trabalhando em biblioteca e tendo contato com notáveis autores, o que lhe deu sólida cultura literária. E se apoiou nos irônicos e mordazes Xavier de Maitre e Sterne.

Seguindo esse raciocínio, não haveria Dostoievski sem Shakespeare, os modernos contistas sem Tchekhov, o teatro clássico sem as tragédias gregas. Não haveria Ulisses, de James Joyce, sem a Odisseia, de Homero. Ivanhoé, de Walter Scott, e Guerra e paz, de Tolstoi, sem a Ilíada. O som e a fúria, de Faulkner, sem Macbeth, Conrad, Balzac e Cervantes. T. S. Eliot sem Dante Alighieri, Virgílio, William Blake, Henry James e Ezra Pound. O vermelho e o negro, de Stendhal, sem Napoleão Bonaparte. Rimbaud sem Baudelaire. Hemingway sem George Peele. Hitchcock e Conan Doyle sem Edgar Allan Poe. Nabokov sem Pushkin. Paraíso perdido, de Milton, sem Gênesis e Eneida, etc.

Conforme Wisnik, para além do bem e do mal, o futebol brasileiro insiste, desafiadora e ironicamente como o Emplasto Brás Cubas que deu certo. "Quando os sinais legíveis do Brasil são interpretados no mundo como levemente inconsequentes no seu chamado ao prazer, ao mesmo tempo em que o país, regido pelos frívolos e graves - as duas colunas máximas da opinião -, se torna superficial e pesado, ele testemunha ainda, ou testemunhou, junto com a música popular, e não descolado da literatura, uma das mais originais propostas do nosso esboço de civilização: a respiração fora do produtivismo sem trégua, a capacidade de comunicação entre lógicas múltiplas e a leveza profunda" - diz ele.
 

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