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10/07/2011A inocência por princípio - Gilberto Marques
10/07/2011
Publicado no Diario de Pernambuco - 10.07.2011
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O FMI tremeu na cocuruta, a base é mais embaixo. A França saiu do brilho de Paris – cidade luz, para a morada sem brilho do cárcere. Jabor, o cronista da TV, esqueceu a gravidade do mister, a importância, a força da opinião e juntou-se à turba ensandecida dos moralistas – puro frenesi erótico. No opróbrio Arnaldo desancou o velhinho do Fundo, sem dó nem propriedade.
A tara descrita, não raro, assanha o injusto, alimenta a desdita, fermenta o baldão. Calúnia, injúria, difamação, compõem o elenco com facilidade e muita pressa. Todo mundo vira juiz. No caso, a pimenta tinha raiz marxista no composto da pieguice. Capital e trabalho, banco e tamborete, patrão e empregado pobre e rico, cozinha mexicana no restaurante francês. Erotômanos de todos os matizes açulam-se no relatório da sentença. Os mais eufóricos são os enrustidos. A mantilha esconde os olhos, mas não esconde o arfar inclemente. O Bombix não para de compor mais seda. O bodegueiro ri à toa. O véu da hipocrisia adorna o discurso. Pisoteiam-se os avanços da humanidade. O indubio pro reo, de priscas eras, é chacota. A presunção de inocência, bem mais jovem, então, é puro riso de escárnio na maledicência.
Jabor, um tenor importante no Brasil, comanda o coro mundial de sopranos. As cinzas de Pavarotti rebolam-se rarefeitas, sem voz, na orquestração. A arrumadeira cinco estrelas desarruma o judiciário ianque, esgana a promotoria do ministério público americano e reacende o risco da pena capital na república dos guerrilheiros.
O olhar perequeté suprimiu os ditames da ciência. As algemas preveniram a impunidade suposta. Injustiça é leseira de romântico, no pensar de maioria extensa. Prender é a ordem e vira regra. Só penso nos que não têm fiança nem tampouco finanças a lhes afiançar. Sem defensor, sem defesa, sem ouvidos aptos, fenecem no quadrado das celas.
Strauss-Kahn tinha o que perder e perdeu no primeiro tempo. A versão da ninfa cheia de falhas claríssimas, correu solta. Bastava espiar Dominique pra desconfiar da trama. Como imaginar o ancião, lento, grisalho, solitário, cuja arma era apenas o olhar pidão suprimindo a resistência da fêmea vigorosa e saudável. A presença do sêmem nas vestes contava do improvável desafeto. Ejaculação precoce, ereção prévia, ali, nem com muito viagra. Mais próprio, talvez, a incontinência urinária da próstata madura. Strauss valsou na chapa quente da incontinência do estado e tinha muito o que perder. A moça não. O que consola, porém, é saber que além da causa ele pode ganhar outro rumo. O efeito colateral o ímpeto traduzido no 1º verso do hino francês: Allons enfants de la patrie.
Juízes, acusadores, carcereiros no mundo inteiro avant: perdão foi feito pra gente pedir.
