A gripe e a verdade - Arthur Carvalho

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19/08/2009

A gripe e a verdade - Arthur Carvalho

19/08/2009
A gripe e a verdade - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 19.08.2009

Como acontece com quase todas as ciências, a ciência médica progrediu muito. E o que era verdade antigamente ou há quarenta, cinquenta anos, hoje não é mais. O que agora é verdade poderá não ser daqui a horas, minutos e segundos.

Na minha infância, não havia vacina para catapora, sarampo, papeira, coqueluche. "Tratava-se" catapora, sintomaticamente, com banho morno e talco, para aliviar a coceira. E esperava-se o vírus "morrer", no período de uma, duas semanas, mais ou menos. Sarampo, a mesma coisa. Quem tivesse papeira, também chamada caxumba, aplicava compressa de pomada antiflogestine, no pescoço, o que emprestava ao doente aspecto feio e um tanto ridículo. Para a coqueluche, que causava tosse horrível, "tosse de cachorro", como dizia minha mãe, "faltando ar" ao paciente, durante a crise, o "remédio" era andar de avião ou procurar as regiões e cidades altas. Fui para Petrópolis, com meu pai.

A verdade da medicina, portanto, era essa. Agora, temos vacinas para essas doenças, aparentemente bobas mas que, naquela época, chegavam a matar em certos casos. E como ainda não havia "penicilina", leia-se, antibiótico, o jeito era tentar baixar a febre com o terrível "escalda pés", que consistia em enfiar os pés numa bacia com água quentíssima.

Basite (inflamação na base do pulmão), tratava-se com gemada (gema crua de ovo batida com leite e açúcar). Hoje, sabe-se que a gema crua do ovo é um manancial de bactérias perigosas.

Taquicardia, arritmia cardíaca e prolapso da válvula mitral eram diagnosticados como distonia do neurovegetativo. E não se receitava remédio, mandava-se o paciente ter "vergonha na cara": "Você, um atleta, um engenheiro, um advogado, com crise de vago-simpático! Vá ao cinema, ao futebol, vá tomar uísque com os amigos!" Hoje, o médico pede trezentos exames cardiológicos e ainda o classifica de "indivíduo sedentário" porque você não corre dez quilômetros por dia.

De vez em quando, um vírus forte de gripe assola os continentes. Teve a gripe espanhola, que matou milhões de pessoas no mundo inteiro, a asiática, mais leve, a Hong-Kong, a aviária e agora a suína.

Penso, salvo melhor juízo, que a grande arma para enfrentá-la é estar bem preparado fisicamente. Boa alimentação, exercício moderado (a gripe espanhola ceifou mais atletas do que velhos e crianças, porque pegava seus corpos debilitados pelo esforço excessivo), pouco álcool e nada de droga ou cigarro. Sexo é vida mas é bom não ir com muita sede ao pote, como aconselhava o poeta Tomás Seixas. Registre-se que não há remédio que a previna ou cure. Mesmo porque, esse vírus ainda em mutação, pode se fortalecer. Como em toda gripe, atenção redobrada para as complicações, tipo broncopneumonia, meningite, sinusite etc. Muita verdura, fruta, líquido e repouso nas horas certas, com sono reparador. Evitar ambientes fechados, muito frios e úmidos. Um solzinho, pela manhã, até nove horas, é bom, para fixar a vitamina D. Lave as mãos com sabonete. Se visitar o Senado, troque o sabonete por detergente e creolina.

 

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