A força das mulheres - Antonio Gonçalves

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02/09/2010

A força das mulheres - Antonio Gonçalves

02/09/2010
A força das mulheres - Antonio Gonçalves

Publicado na Folha de Pernambuco - 02.09.2010

Sete de agos­to de 2006. Essa é a data que mo­di­fi­cou um ce­ná­rio vi­cia­do e es­tan­que que há muito exis­tia para as mu­lhe­res bra­si­lei­ras, pois se trata da edi­ção da Lei de com­ba­te à vio­lên­cia do­més­ti­ca que, po­pu­lar­men­te, re­ce­beu a al­cu­nha de Lei Maria da Penha. Com a cria­ção dessa lei houve a pos­si­bi­li­da­de con­cre­ta de com­ba­ter as agru­ras e o so­fri­men­to cau­sa­do às mu­lhe­res, em de­cor­rên­cia da vio­lên­cia do­més­ti­ca rei­te­ra­da e con­tu­maz, que, até então, era pouco coi­bi­da e so­fria uma re­sis­tên­cia con­si­de­rá­vel em ser acei­ta na rea­li­da­de co­ti­dia­na, em es­pe­cial das au­to­ri­da­des.

A Lei Maria da Penha mo­di­fi­cou, prin­ci­pal­men­te, a pos­si­bi­li­da­de da tran­sa­ção penal para a vio­lên­cia do­més­ti­ca e, por con­se­guin­te, a con­ver­são da pena de multa no pa­ga­men­to de ces­tas bá­si­cas, o que ba­na­li­za­va a con­du­ta e não coi­bia a rein­ci­dên­cia.

E trans­cor­ri­dos qua­tro anos da vi­gên­cia da norma o re­sul­ta­do, se não é ex­ce­len­te, ao menos re­tra­ta uma mu­dan­ça de pa­ra­dig­ma na tra­ta­ti­va e na de­nún­cia do crime em si. Entretanto, ainda paira uma con­tro­vér­sia em nos­sos Tribunais acer­ca do es­pí­ri­to da norma, ou seja, qual a atri­bui­ção pre­cí­pua da Lei Maria da Penha?

Pelo en­ten­di­men­to cor­ren­te de al­guns tri­bu­nais a lei n° 11.340/06 deve pro­te­ger a fa­mí­lia, e nesse con­tex­to temos uma ampla pro­te­ção para a mu­lher ca­sa­da ou que con­vi­ve em re­gi­me de união es­tá­vel. O in­tri­gan­te é que em de­ci­sões re­cen­tes al­guns ma­gis­tra­dos re­jei­ta­ram a pro­te­ção à mu­lher por en­ten­de­rem que uma re­la­ção oca­sio­nal ou de curta du­ra­ção não goza da gua­ri­da da Lei Maria da Penha.

Exemplo atual foi a de­ci­são no Estado do Rio de Janeiro acer­ca da jovem Eliza Samudio, que de­nun­ciou um atle­ta de uma gran­de agre­mia­ção de pra­ti­car rei­te­ra­da­men­te a vio­lên­cia do­més­ti­ca. E para qual não foi a sur­pre­sa, a de­nún­cia foi re­jei­ta­da por não se tra­tar de uma re­la­ção es­tá­vel.

Hoje a jovem nem mais viva está para se de­fen­der. Será que se a pro­te­ção ti­ves­se sido dada na época pro­pí­cia o ce­ná­rio, ou me­lhor, o re­sul­ta­do não po­de­ria ser di­ver­so?

Ora, o ar­ti­go 2° da norma é claro:

“Art. 2º Toda mu­lher, in­de­pen­den­te­men­te de clas­se, raça, etnia, orien­ta­ção se­xual, renda, cul­tu­ra, nível edu­ca­cio­nal, idade e re­li­gião, goza dos di­rei­tos fun­da­men­tais ine­ren­tes à pes­soa hu­ma­na, sendo-lhe as­se­gu­ra­das as opor­tu­ni­da­des e fa­ci­li­da­des para viver sem vio­lên­cia, pre­ser­var sua saúde fí­si­ca e men­tal e seu aper­fei­çoa­men­to moral, in­te­lec­tual e so­cial”. (Grifamos)

O es­pí­ri­to da norma não é a pro­te­ção à mu­lher que vive em re­gi­me ma­tri­mo­nial ou de união es­tá­vel, mas sim de pro­te­ção a toda e qual­quer mu­lher que sofra abuso, ou seja, ví­ti­ma de vio­lên­cia, in­de­pen­den­te­men­te do grau de afi­ni­da­de ou re­la­ção com o agres­sor.

Um de­ba­te acer­ca do es­pí­ri­to da norma é es­té­ril e re­ti­ra o foco cen­tral da pro­te­ção al­me­ja­da pela Lei Maria da Penha: a mu­lher!

Categorizar e sub­di­vi­dir as mu­lhe­res em gru­pos e, assim, de­ter­mi­nar quem pode ou não ser ví­ti­ma de vio­lên­cia do­més­ti­ca é um re­tro­ces­so in­com­pa­tí­vel com o es­pí­ri­to de todos os Tratados e Convenções Internacionais as quais o Brasil é sig­na­tá­rio e que ins­pi­ra­ram a cria­ção da Lei n° 11.340.

Que a lei mos­tre a força de pro­te­ção à mu­lher, pois so­men­te assim te­re­mos uma pro­te­ção justa e equâ­ni­me con­tra os agres­so­res que se valem de in­ter­pre­ta­ções equi­vo­ca­das para se man­te­rem em li­ber­da­de. 

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