A FLIPORTO e a literatura judaica - Antônio Campos

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18/10/2010

A FLIPORTO e a literatura judaica - Antônio Campos

18/10/2010
A FLIPORTO e a literatura judaica - Antônio Campos

Publicado na Folha de Pernambuco - 18.10.2010

Pernambuco é o destino brasileiro cujo cosmopolitismo foi decidido desde o principio de sua colonização. Foi o primeiro lugar a organizar-se em torno da cultura. Cultura essa que não era apenas a da cana-de-açúcar, mas do urbanismo, das artes, das ciências. No século 17, mais precisamente nos anos entre 1630 e 1654, essa característica marcante da nossa terra se evidenciou. Era esse o famoso tempo dos flamengos, mais conhecidos como holandeses - tão estudados pelo grande historiador José Antônio Golçalves de Mello.

Na constituição dessa rica presença, uma das mais estudadas e decantadas foi a contribuição da cultura judaica. José Antônio, dentre seus inúmeros estudos e pesquisas, fez uma análise sobre a história, formação e costumes dos judeus que vierem para Pernambuco nesse período. Eles, que deixaram traços fortes na história e imaginação pernambucana, marcaram literalmente seus territórios através de construções como a da primeira sinagoga das Américas, ainda existente na Rua do Bom Jesus. Outra importante recordação dos judeus pernambucanos foi a aventura que os levou, em um pequeno barco, a viajarem pelo Atlântico e construírem uma cidade litorânea, cidade esta que hoje veio a ser a megalópole Nova Iorque.

Na verdade, os judeus sempre estiveram conosco. Desde a chegada dos portugueses ao Brasil com o explorador Pedro Álvares Cabral, Olinda e Recife foram destinos para vários judeus e cristãos novos (judeus convertidos ao cristianismo por medo da Inquisição) vindos da península ibérica (Portugal e Espanha). Graças à influência desses povos aprendemos a cultivar com igual intensidade o amor pela multiculturalidade e pelas nossas raízes mais profundas por meio de um forte orgulho regional, a tão aclamada pernambucanidade. Herdamos ainda a capacidade de vivermos o passado, o presente e projeções do futuro de forma integrada, como se fossem um só tempo.

Os judeus deram, de fato, uma riquíssima contribuição em vários aspectos, sobretudo à cultura do Estado. A inseparável influência deles em nossas identidades ibéricas e transnacionais despertou em nós a necessidade de transpor nosso orgulho pela rica base cultural e ideológica gerada por eles. Por isso escolhemos como tema da Fliporto 2010 “A literatura judaica e o mundo ibero-americano”. Dentro desse contexto, escolhemos a escritora Clarice Lispector para ser a homenageada da VI Festa Literária Internacional de Pernambuco - FLIPORTO, que acontecerá entre os dias 12 a 15 de novembro próximo, visto que ela, além de ter uma obra literária fantástica, digna de homenagens eternas, era de família judia de origem ucraniana e viveu no Recife até os doze anos, tendo morado em um casarão da Praça Maciel Pinheiro, antigo tradicional reduto judeu no Centro da Cidade.

Como história, cultura e literatura andam sempre juntas, a festa, antes realizada na praia de Porto de Galinhas, Litoral Sul de Pernambuco, muda-se para nossa mágica cidade-patrimônio e primeira capital brasileira da Cultura. Sinônimo de memória e inspiração para artistas plásticos, músicos, compositores e artesãos, Olinda abre suas portas de maneira inigualável para a literatura.

A Fliporto, apesar das inúmeras novidades, preserva sua essência e a concepção de que os autores necessitam um “porto” a fim de interagirem com o público local. É através desses portos que esses “literatas viajantes” fazem um escambo de experiências e conhecimento. A natureza, os casarios seculares, a tradição e os ares de cidade colonial fazem do Sítio Histórico de Olinda o porto perfeito para o infinito mar da criação literária.

 

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