A falta de docentes nas federais - Palhares Moreira Reis

Notícias

28/01/2011

A falta de docentes nas federais - Palhares Moreira Reis

28/01/2011
A falta de docentes nas federais - Palhares Moreira Reis

Publicado na Folha de Pernambuco - 28.01.2011

A política educacional do atual Governo, mesmo querendo acertar, tem conseguido a proeza de criar universidades em quantidade, esquecendo um detalhe: o professorado. Nestes últimos cinco anos foram criadas 15 instituições federais de ensino, muitas delas em locais de difícil acesso e sem tradição acadêmica.

Por isso, defrontam-se agora com a dificuldade de conseguir professores qualificados. Para atender às demandas do Sul maravilha, o Governo passou a exigir alta qualificação para os professores universitários federais, que deverão ser portadores de mestrado ou doutorado, e trabalhar em dedicação exclusiva (sem qualquer outro emprego) ou em apenas 20 horas semanais, com o salário correspondente, isto é, bem abaixo das necessidades normais de uma família.

Como a remuneração é igual para todo o País, para ganhar a mesma coisa, é melhor lutar por um lugar numa universidade que se situe numa área mais desenvolvida (Sudeste, Sul, ou até mesmo o Nordeste banhado pelo mar) e não no interior da Amazônia.

Nas universidades federais de Rondônia, Amazonas e Pará foi necessário ser abertos novos concursos pela total ausência de candidatos nos concursos anteriores com a qualificação exigida. Mesmo porque, as notícias a respeito dão conta que um dos novos campi fica a 720 quilômetros de Manaus e outro numa cidade de 20 mil habitantes, na fronteira com a Colômbia e o Peru, ademais de não ter infraestrutura adequada, nem transporte aéreo. 

Se um professor, ou candidato a professor, já se preparou academicamente para enfrentar um concurso para docente numa universidade federal - de 4 a 6 anos na graduação, mais 3 de mestrado e mais 5 de doutorado, em média, num total de 12 a 16 anos de estudos, dificilmente vai querer ir para um campus que nenhum atrativo maior possa oferecer.

Ora, se nos confins da região amazônica, as instituições de ensino superior federais ainda estão em fase de instalação, muitas delas ainda em obras de construção civil e sem equipamentos (por não se ter nem onde colocar), dificilmente se poderá instalar numa entidade em tais condições cursos de pós-graduação para obtenção dos graus de mestre e de doutor.

Os dirigentes das instituições federais de ensino (ANDIFES) estão verdadeiramente preocupados com a situação. De nada adiante criar novas universidades, como se vem fazendo, ou incrementar programas de pós-graduação, com um aumento grandemente significativo de mestres e doutores em todo o País.

No entanto, mestres e doutores, depois de todo esse tempo de estudos, não irão pretender ficar internado na selva amazônica, sem os atrativos da cidade grande aos quais está acostumado.

Se numa universidade federal do Nordeste (quase todas nas capitais dos Estados, cidades com desenvolvimento) se estabelecem critérios de admissão de docentes restringindo-os ao trabalho com dedicação exclusiva e títulos de mestre ou de doutor, e isto espanta muitos candidatos que não querem ficar confinados aos gabinetes e laboratórios acadêmicos, mais difícil ainda se torna a seleção para estas novas universidades sem tradição acadêmica e sem um entorno urbano que apóie os novos professores.

Portanto, é de se ver que o que é bom para as ciências exatas não será, necessariamente, bom de modo igual para todas as outras atividades profissionais que possam servir de base para ampliar o conhecimento a ser transmitido aos futuros alunos. 

É só pensar em um professor de Direito, que não seja de disciplina teórica (Filosofia do Direito, Direito Romano, etc.) para se evidenciar a falta que fará a ausência de oportunidades para ver na prática, como advogado ou magistrado, a aplicação das normas e das doutrinas.  

Voltar