A educação e as circunstâncias do homem - Fernando Araújo

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27/10/2009

A educação e as circunstâncias do homem - Fernando Araújo

27/10/2009
A educação e as circunstâncias do homem - Fernando Araújo

Publicado no Diario de Pernambuco - 27.10.2009

fernandojparaujo@uol.com.br

A imprensa da Europa tem feito duras críticas ao jogador de futebol Ronaldinho, atualmente no Milan, da Itália. Por exemplo: o jornal francês L'Equipe o acusou de "está se perdendo". Ele estaria dando mais importância às rodas de samba e aos pagodes do que aos treinamentos e seus compromissos profissionais. Ou seja, ele está "se lixando" para o futebol. É uma pena, pois ainda é jovem e poderia atuar por mais tempo. Faço esse preâmbulo para tentar explicar como a educação tem tudo a ver com o comportamento das pessoas em todas as situações. O atleta em foco, como todos sabem, começou a vida no Grêmio de Porto Alegre. Chegou à Seleção Brasileira, tendo sido destaque na copa de 2002. Foi para o futebol europeu. Ganhou em 2004 o título de melhor atleta do mundo. Depois do Mundial de 2006, entrou em decadência profissional. Dunga nunca mais o convocou. Ronaldinho ainda não acordou. Ainda não descobriu o óbvio: a frustração dos que confiaram nele, principalmente os torcedores, a espera dos gols, dos seus dribles desconcertantes, dos passes fundamentais. Será que ele se imagina sozinho, sem obrigações para com as outras pessoas? Cada homem está no mundo e é um micro do cosmo. Somos nossa consciência e também nossas circunstâncias. Essas circunstâncias representam os fatores familiar, moral, social, cultural, etc que nos cercam e situam a nossa liberdade. É a expressão do pensamento de Ortega Y Gasset(1883-1955): "Eu sou eu e minhas circunstâncias". Todos nós nascemos com alguns talentos - uns mais do que outros -. Essas potencialidades estão, por assim dizer, adormecidas em nosso interior. À educação, como processo de transformação, cumpre despertar esses valores. Daí o sentido etimológico da palavra educar: acordar, despertar, extrair etc. Despertar o homem para os talentos que estão dentro dele mesmo, como valores positivos à convivência e progresso sociais, dando-lhe a consciência do Ser. A razão de existir e de seu papel no mundo, na história, enfim. Ronaldinho teve despertado muito cedo esse seu talento maravilhoso, o de ser um autêntico bailarino com a bola nos pés. A vida foi seu professor, a rua, a televisão (somente agora é que estão surgindo as escolinhas de futebol). Mas, e os outros talentos, o do respeito, da responsabilidade, da ordem? Parecem ainda adormecidos. E nem mesmo os dirigentes dos ricos clubes europeus o ajudaram nesse sentido, como se a fortuna que o atleta acumulou bastasse. O tempo consome alguns dos nossos talentos, máxime aqueles que dependem de resistência física. Pelé, Tostão, Zico, Sócrates etc., compreenderam muito bem essa verdade. Como um dos grandes teórico da educação, Lev Vygotsky pregava a importância do aprendizado no desenvolvimento humano. Da formação integral do homem, e destacava o papel fundamental nesse processo da escola, dos professores e da intervenção pedagógica. Mesmo se quisesse trocar de imediato o futebol pela percussão, Ronaldinho não devia estar fazendo pouco caso de sua profissão, pelos compromissos que assumiu. Ele é um ídolo, e como tal, precisa ser modelo para os jovens. É o chamado "garantismo social", espécie de retorno, esperado do conjunto das pessoas, de alguém. Destarte, os familiares, amigos e empregadores do atleta precisam ajudá-lo nesse sentido. Caso contrário, quando a idade passar - e com ela a fama e o dinheiro, ele vai entoar aquela velha canção de Moacir Franco: "Sua ilusão entra em campo no estádio vazio/Uma torcida de sonhos aplaude talvez./O velho atleta recorda as jogadas felizes/Mata a saudade no peito, driblando a emoção...".
 

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