A corrida de jangadas - Arthur Carvalho

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25/11/2009

A corrida de jangadas - Arthur Carvalho

25/11/2009
A corrida de jangadas - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 25.11.2009

Durante 37 anos o Hotel Samburá promoveu uma corrida de jangadas da qual participavam embarcações deste Estado e de Estados vizinhos. Após alguns anos de interrupção, volta o Samburá a realizar mais uma dessas regatas, sendo esta a 38ª, com o concurso de cerca de oitenta jangadas da Paraíba, Pernambuco e Alagoas, no próximo domingo, dia 29, com largada marcada para 9h, na praia defronte do hotel, e chegada prevista para 13h, no mesmo local, devendo os competidores fazer o retorno pela Praia de Pau Amarelo, passando pela Praia do Carmo.

Segundo "Cícero do Samburá", empresário e poeta popular, 88 anos de perfeita lucidez e muito trabalho, carpinense radicado em Olinda desde 1950 e idealizador do evento, o objetivo da competição é o resgate histórico e cultural da pesca em Pernambuco, com a interação e o fortalecimento das colônias de pescadores e comunidades pesqueiras do Nordeste, em especial dos pescadores de jangada, barco em via de extinção. Hoje é raro avistarmos as velas brancas da bela embarcação contrastando com o azul dos mares nordestinos. As jangadas tornaram-se presentes apenas nos artesanatos populares e telas dos pintores românticos. Um quadro na parede. Mas como dói!

Com quantos paus se faz uma jangada?

Faz-se com seis toras de madeira leve, utilizada por pescadores para pesca em alto-mar. Sua tecnologia de construção consiste no emprego hábil de materiais com madeira de flutuação (como a balsa paraense e outras espécies de difícil obtenção na atualidade), tecidos e cordas artesanais. A tradicional mesmo não possui elementos em metal (como pregos, braçadeiras. etc.) - sua estrutura é totalmente fixada por encaixes e amarrações com fibras selvagens.

A jangada imortalizada nas canções praieiras de Dorival Caymmi sempre me causaram simpatia e curiosidade. Quando fui morar na Beira-Mar de Olinda, hoje Av. Marcos Freira, a artéria ainda não era pavimentada. As jangadas voltavam do alto, ao cair da tarde, com os samburás repletos de cavala, pampo, dourado, beijupirá, garoupa, alguns desses peixes ainda vivos, pulando das cestas, guelras vermelhas, sangrando. Os peixes eram comprados por Pedro Babão e Moisés, donos dos entrepostos de revenda, vizinhos das ruínas do antigo farol de Olinda. Pedro e Moisés costumavam me presentear com ovas de arabaiana e arraia, peixe cobiçado na Bahia, mas sem valor de mercado, à época, no Recife. A moqueca de arraia, ao leite de coco, azeite-de-dendê, farofa dourada, molho de pimenta-de-cheiro e uma geladinha, é de comer rezando ajoelhado.

O pescador campeão do torneio receberá bonita taça além de prêmio em dinheiro. Serão distribuídos diversos brindes com o público presente. Quem comparecer vai ver e participar de festa bonita e tipicamente nordestina.

P.S.– Não é da minha conta, mas a Academia de Letras de Pernambuco enriquecerá seu quadro de sócios se eleger o professor, advogado e penalista Roque de Brito Alves, de família tradicional de juristas, magistrados e homens de letras.
 

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