A capacidade de se indignar - Gustavo Henrique de Brito Alves Freire

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05/03/2010

A capacidade de se indignar - Gustavo Henrique de Brito Alves Freire

05/03/2010
A capacidade de se indignar - Gustavo Henrique de Brito Alves Freire

Publicado no Jornal do Commercio - 05.03.2010

O assassinato a tiros do jovem universitário de biomedicina da UFPE Alcides do Nascimento Lins, morador da Vila Santa Luzia, no bairro da Torre, chocou Pernambuco, o Brasil e o mundo. Mais que uma tragédia, uma vergonha.

Alcides sucumbiu por não saber, às onze e meia da noite de uma sexta-feira, ao ser abordado em casa, o paradeiro de dois vizinhos seus, que eram os verdadeiros alvos dos criminosos, um adolescente de 16 anos de idade e um adulto detentor de uma ficha policial para ninguém colocar defeito, réu em diversas condenações pela Justiça.

Engano coisa nenhuma. Um dos tiros que matou Alcides foi disparado diretamente na cabeça. E quem atira na cabeça, atira para matar, não para fazer graça.

O tal adolescente disse à polícia que ele e o outro estavam alcoolizados no momento do crime e que seus alvos, os dois vizinhos de Alcides, eram traficantes de drogas rivais. Nota relevante: o assassino maior de idade está foragido desde então.

Será que estamos perdendo a queda de braço com a violência, a despeito, entre outras coisas, do próprio Estatuto do Desarmamento, em vigor desde dezembro de 2003, portanto, há quase 7 anos?

O fato é que o País vivencia, nos seus principais centros urbanos, um cotidiano de verdadeiro faroeste. As pessoas saem para trabalhar ou para a escola, a faculdade, sem saber se voltarão à noite para casa. Morre-se por qualquer trocado, por um par de tênis, por um vale-refeição. Alguém na internet escreveu: poupem os animais, tem bicho mais cruel que o ser humano? É… realmente não tem.

Filho de uma ex-carroceira e catadora de lixo, analfabeta, órfão de pai, Alcides tirou o primeiro lugar entre os vestibulandos da rede pública de ensino em 2007. Alimentava planos de cursar um mestrado e um doutorado. Iria formar-se em setembro deste ano. Sustentava-se e à sua família com dois estágios remunerados.

Alterar a legislação não soluciona o problema. Reprimir a violência com mais violência também não. A raiz do desafio é compreendê-lo como algo bem mais amplo do que o óbvio autoriza ver. O enfrentamento há de ser multidisciplinar. Aparelhar a polícia é fundamental, mas não derrotará, por si só, o inimigo que espreita lá na penumbra. O criminoso parece estar sempre adiante das autoridades. É preciso atalhá-lo, e surpreendê-lo, antes que dê o próximo passo.

Assim se manifestou em seu Blog o jornalista Geneton Moraes Neto: "Uma vida foi desperdiçada em troca de quê? De nada. Há qualquer coisa de terrivelmente errado num país que premia com dois balaços o filho de uma ex-catadora de lixo que, a despeito de tudo, chega à universidade na condição de primeiro lugar entre alunos de escola pública. Neste momento, só há um sentimento possível: a enorme, a indescritível, a imensurável, a monstruosa vergonha de ser brasileiro" (Post de 10/2/2010). Não há como não assinar embaixo.

O pior de tudo, porém, será esquecer Alcides amanhã ou depois e tudo de edificante, de bom, que ele representou. E, ao esquecer Alcides, limitar-se a tocar o barco da vida em frente, como se não houvesse jeito a dar nas coisas. Aí sim será o fim. Vencerá o caos. Vencerão os assassinos de Alcides. Vencerá a violência. Perderá todo o resto.
 

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