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02/06/2010A buzina do senador - Arthur Carvalho
02/06/2010
Publicado no Jornal do Commercio - 02.06.2010
Estive em Natal, recentemente, para as bodas de ouro de Kleber de Carvalho Bezerra com minha irmã Maria Elisa. Tivemos como cicerones - eu, Joaninha e Mamá - o engenheiro, meu velho e querido amigo, Dom Fabiano Veras, e minha comadre Jandira, cuja gentileza não tenho como agradecer e retribuir.
Na missa, o prazer de reencontrar Woden Madruga, Aécio Augusto Emerenciano, os irmãos Franklin e Haroldo Bezerra, Carlos Alberto, Lauro Bezerra, e, na recepção, Ezequiel Ferreira de Souza, Etevaldo Miranda, Hélio Nelson e Ronald Gurgel, para citar apenas os de minha geração.
Há muito eu não ia a Natal.
Natal está linda, limpa e arborizada, com construções novas. Os noruegueses, espanhóis e portugueses gostam da cidade e têm investido muito nela, em diversificados empreendimentos, com duas consequências: o progresso urbano e a inflação galopante do preço dos imóveis, inclusive terrenos próximos ao litoral, ao mar, principalmente na Via Costeira, local de excelentes hotéis. As Praias de Cotovelo, Búzios, Pirangi do Norte e Pirangi do Sul também são muito valorizadas. Vale a pena dar um pulinho na Redinha para comer uma sardinha frita com cerveja.
Mas o que me impressionou mesmo em Natal foi seu trânsito. Nos três dias que passei lá, não ouvi uma buzina. Que diferença do Recife! Na área entre o Entroncamento e as pontes da Torre e da Capunga, por exemplo, a poluição sonora nos horários de pique é infernal. Os motoristas buzinam por qualquer motivo, defronte dos hospitais da Restauração, Santa Joana e Hemope. As ambulâncias circulam em alta velocidade e com sirene ligada, em ziguezague terrível. E a turma não abre pra elas. Conheço um senhor que se mudou da Av. Beira-Rio por não mais suportar sirene de ambulância e da polícia.
Pergunta-se: o que se passa na cabeça de um indivíduo que, preso a um engarrafamento, buzina insistentemente, para "resolver" um problema a quilômetros de distância? Será que o motorista da frente está gostando da situação? Será que vai dar passagem pro apressadinho?
No meu tempo, quando um imprudente se picava, cortando todos os veículos que encontrava, buzinando e atropelando, dizia-se: "Coitado, ele está apressado porque vai tirar a mãe da zona!" Como se não bastasse, na hora do rush, os motoqueiros estão trafegando por cima das calçadas, enquanto as carroças de cavalo, as pequenas carroças puxadas por pobres diabos e as bicicletas trafegam na contramão. Fora os gênios que ultrapassam pelos acostamentos das avenidas e estradas. No Brasil, prejudicados são os otários que cumprem a lei. Os marginais permanecem impunes, rindo à toa.
O ex-dono da revendedora de veículos O Senador dos Automóveis, estabelecida em priscas eras na Conde da Boa Vista, me disse, certa vez, que vendeu um Cadillac conversível a um prefeito do interior, porque a buzina tocava as primeiras estrofes de Asa Branca. "Parece que estou vendo a mulherada voar nesse possante, quando eu estiver no Centro da cidade tocando esse baião!", imaginou o burgomestre, ao pagar o Cadillac, em espécie, com um maço de cédulas, tiradas do bolso traseiro da calça jeans desbotada, alpercatas de couro com chapéu de vaqueiro.
Se o carro é arma mortal na mão de um irresponsável, o automóvel de luxo exerce grande fascínio na maioria das pessoas, principalmente mulheres. Quando um amigo meu, já um tanto provecto, estaciona sua Mercedes esportiva, do ano, aparece uma boizinha deslumbrada: "Que carrinho lindo!" "Você achou, meu bem?" "Achei." "Quer conhecer melhor o dono?" E a resposta é sempre "quero". Com ou sem buzina, que Deus é pai e não padrasto.
