A bola da Copa - Arthur Carvalho

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16/06/2010

A bola da Copa - Arthur Carvalho

16/06/2010
A bola da Copa - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 16.06.2010

Dizem os alfarrábios que o futebol foi inventado na China, em priscas eras. E que as bolas eram caveiras humanas. Outros garantem que o association foi criado nos campos verdejantes e bem cuidados da Grã-Bretanha, pelos ingleses, que se julgavam, equivocadamente, os melhores do mundo, até perderem de 1 x 0 para os amadores norte-americanos, em Belo Horizonte, na Copa de 50, naquela que ainda é considerada a maior zebra de todos os mundiais. E levarem 6 x 1 da Hungria, dentro de casa, em 1954.

No meu tempo de criança, batíamos baba (aqui é pelada, no Sul, racha) com diversas bolas. Tinha a bola de papo de peru, que, como o nome diz, era feita de papo de peru. Enchia-se o papo de ar até ele chegar ao tamanho de uma bola, digamos, "oficial", depois o envolvíamos com folhas novas de mamona, amarrando as folhas ao papo com barbante. O barbante protegia o papo, dando-lhe mais equilíbrio e consistência. Bola frágil, furava com facilidade quando espetava em espinho, prego, ponta de pedra. E estourava num lance violento de travada ou dividida.

Existiam também as lendárias bolas de meia. Feitas de jornal amassado e envoltas em meias de mulher, faziam a alegria dos meninos que não podiam comprar a "de verdade".

Brincávamos ainda com a bola de tênis - ótima para treinar controle - e de borracha. A de borracha já nos dava grande alegria, mas era leve, quicava muito, furava constantemente. Excelente para as peladas de beira de praia, porque caía no mar e voltava com o mesmo peso, ao contrário das de couro. Mas quando melava de areia, ardia no pé de quem chutava e no peito descoberto do pobre do goleiro. Não conheço posição mais infeliz que a de goleiro de praia.

A primeira bola oficial que chutei era de couro, costurada à mão. Absorvia água de chuva, o que a tornava muito pesada. Enchia-se essa bola pelo pito de borracha, enfiando-o para dentro, com câmara e tudo. Em seguida, "costurava-se" a brecha. Essa costura, que ficava do lado externo da bola, exigia habilidade. Mesmo assim, machucava a testa dos cabeceadores.

A partir de 1950, a bola passou a ter costuras internas de couro. Na Bahia, chamava-se "bola argentina", não sei por quê. Sei que um dia meu pai chegou em casa e anunciou para nosso delírio (meu e de meu irmão Carlos Aloysio): "Comprei uma bola argentina pra vocês". Joguei a vida inteira com essa bola. Quanto mais água pegava, mais pesada ficava - bola preferida dos jogadores de chute forte. Para esses, a bola quanto mais pesada, melhor, porque não sobe muito. Naquela época, por economia, pintava-se de branco a bola usada para as partidas noturnas, e a tinta a óleo endurecia o couro tornando a bola pesadíssima. Muito cheia, parecia de chumbo e chegava a doer no pé. Cortar essa bola, de cabeça, numa barreira, era suicídio.

Em 1970, surgiu a Telstar, da Adidas, com 20 hexágonos brancos e 12 pentágonos pretos. Em 1986 a Azteca abandonou o couro e usava material 100% sintético, com fibras feitas em laboratório. A bola da África do Sul tem oito gomos sintéticos 3D, já fabricados no formato esférico, com rachaduras em sua superfície, revestimento de algodão e poliéster e câmara de látex, e promete trajetória estável e total precisão. As opiniões se dividem. Júlio César não gostou, alegando que elas são muito ligeiras e "mudam de caminho" antes de chegar ao gol, dificultando-lhe a defesa. A altitude de Joanesburgo (1.753 m) tornam-na um pouco mais leve. Disseram também que ela parece "bola de praia" e "bola de supermercado". E que quem a desenhou e projetou "nunca jogou futebol". Os garotos-propagandas da Adidas, fabricante da Jabulani, elogiaram-na, inclusive Kaká. Nesses amistosos do Brasil na África, ela me pareceu maneira. O ideal seria o meio-termo: nem ágil, nem ronceira. Com ou sem ela, a sorte está lançada.

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