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23/11/2009A babá de Ramalho - Alexandre Gois de Victor
23/11/2009
Publicado no Diario de pernambuco - 23.11.2009
alexandre.gois@urbanovitalino.com.br
Mesmo sem contar com a anuência de Ramalho, na segunda, logo cedo, a nova doméstica chegara ao apartamento do casal. Suas atribuições estavam ligadas ao cuidado com o bebê recém chegado. Primeiro filho, sabem como é. Tudo novo para todo mundo. A indicação para o ofício fora feita pela mãe de Amanda, desafeto antigo de Ramalho desde os tempos de namoro. Casara a contragosto da mãe, a quem Ramalho sempre acusou de dominadora e frívola. Dizia à esposa que pela sogra, Amanda ainda estaria debaixo de suas azas, em sua casa, fazendo-lhes os caprichos. - Só pode ter sido coisa daquela cobra! Disse Ramalho com o tom de reclamação que lhe era habitual. Jerusa tinha menos de vinte anos, pela negra, baixinha, seios firmes e fartos, rosto bonito, pernas roliças e bumbum durinho. Para Ramalho, era mais uma tentativa da sogra de separá-lo de sua mulher. Aproveitara que Amanda acabara de dar a luz para fazer essa afronta.
Golpe dos sujos. A sogra fizera tudo de propósito, justamente, valendo-se do momento de fragilidade emocional do pós-parto, quando a filha encontrava-se em estado de recomposição de sua auto-estima. Também por isso, Ramalho era terminantemente contra a contratação de uma bábá. Entre outros, foi vencido pelo argumento da esposa de que ele trabalhava demais e não teria tempo sequer para ajudá-la com o filho do casal naqueles primeiros meses. Mas para Ramalho, o objetivo da bruxa era inseri-los na vala do ciúme e da discórdia. Dito e feito, em poucas semanas Amanda começou a enxergar coisa onde não havia. Acusava o marido de sempre olhar diferente para a Jerusa e de não mais reparar na própria esposa, ainda se recuperando do parto. - A bunda, Ramalho! Você olhou para a bunda dela! Seu cachorro! Não respeita nem nosso filho?! Dentro de casa?! Homem é tudo igual... Num suspiro e de sobrancelhas franzidas Ramalho disse não aguentar mais. Bradou com a mulher e afirmou, pela milésima vez que essa implicância tinha que acabar de uma vez por todas. Aquilo não tinha o menor cabimento. De mais a mais - disse Ramalho à esposa - ainda que Jerusa fosse a última mulher habitando a face da terra, ainda assim, não lhe chegaria perto. Ao ser indagado pela mulher sobre o motivo, Ramalho respondeu: - Você não viu a gengiva dela? - Não! Respondeu Amanda. É roxa! Disse Ramalho. Da cor do caroço, partido ao meio, de uma pitomba madura. Horrorosa. E você sabe que não suporto mulher de gengiva roxa! Lembra de Neusa? Aquela da faculdade? Deu em cima de mim durante todo o curso e eu nunca dei a mínima para ela! A gengiva de Neusa parecia um jambo que caiu do pé! - Eu sempre achei que você teve alguma coisa com aquela pistoleira, disse Amanda rangendo os dentes. Nesse momento Ramalho levanta as mãos para o céu e diz: - Nem a bábá escapa de sua insanidade?! Como é que minha própria esposa pode pensar numa sandice dessas, justamente, num dos momentos mais importantes de nossas vidas! O momento em que a candura divina se fez presente na forma de um filho perfeito! Cheiode saúde! Tudo com que havíamos sonhado! Um júbilo de nossos espíritos! A prova definitiva da existência de Deus em nossos corações! É muita pequinez de espírito! - Pelo amor de tudo! Disse Ramalho com os olhos já marejados. Um silêncio fúnebre tomou conta da sala. De Ramalho, com cabeça baixa e acomodada entre os joelhos, ouvia-se o fungado do nariz, em brava luta com a coriza. Amanda chegou perto, fez cara de denguinho, aquela voz de chamego, curvou-se diante do marido e deu-lhe um abraço. - Ô, amor... Perdoa. É que são muitas mudanças na vida de uma mulher. Prometo que não vou pensar mais nessas coisas, tá? - Nessas coisas ridículas, né amor? Disse Ramalho já com voz mansa e em tom de reconciliação. Dali, Ramalho e Amanda foram dormir de conchinha em seu quarto. Ar condicionado desligado por contensão. Ramalho, como todo homem, calorento, de madrugada, precisou ir à cozinha para refrescar-se com um copo d'água gelado. Não acendeu as luzes. Preferiu caminhar na penumbra. Foi aí que com o copo ainda em riste, o segundo gole foi interrompido pela visão de Jerusa usando pouca roupa. Ramalho engasgou. O "oi, doutor..." de Jerusa, foi seguido por um enorme sorriso de cor púrpura. Ramalho deu-lhe um puxão com violência e, ainda suado, tascou-lhe um beijo hollywoodiano, sufocando Jerusa, que o acompanhou em respiração agora descompassada. - Vem cá, roxinha, sussurrou Ramalho. - Meu nome é Jerusa, doutor... Cala a boca e me dá essa gengiva prá cá, sua danada. Os atos que se seguiram foram testemunhados apenas pelas paredes da apertada dependência de empregada do três quartos de Ramalho financiado pela Caixa. Ramalho parou de trabalhar. Prefere que a esposa o faça. Achou melhor assim. Disse que não gostaria de cometer o erro que seus pais cometeram com ele. Queria que o filho crescesse com o pai por perto. A mãe passa o dia fora, trabalhando, para fazer face às despesas do lar. Ramalho passeia diariamente com Robertinho, ajuda Jerusa em todas as tarefas, reconciliou-se com a sogra e, hoje, é o orgulho da mulher.
