20 anos de saudade - Gustavo Henrique de Brito Alves Freire

Notícias

29/04/2011

20 anos de saudade - Gustavo Henrique de Brito Alves Freire

29/04/2011
20 anos de saudade - Gustavo Henrique de Brito Alves Freire
Publicado no Jornal do Commercio - 29.04.2011

Tinha 16 anos de idade quando ele se despediu do plano terreno para abraçar o da eternidade. Estávamos na madrugada de 23 de abril de 1991, quando eu soube por meio de meu pai, que retornara para nossa casa em Casa Forte vindo do hospital, que havia perdido meu avô Antônio de Brito Alves. Hoje, duas décadas depois, remanesce uma imensa saudade, como se a sua partida tivesse sido ontem, mas uma saudade sempre boa, pois não se confunde com alívio. Alívio se sente de quem, em vida, nunca deu para gente. Apreciador dos livros e dos filmes de Chaplin, meu avô tinha especial predileção Luzes da ribalta e O grande ditador. A íntegra impressa da fala de Chaplin na última cena de O grande ditador, com o ingênuo barbeiro judeu confundido com o desalmado tirano Hynkel, meu avô mandou emoldurar e mantinha sempre junto de si, inclusive, quando chegou ao TJPE como desembargador pelo 5º Constitucional, nomeado pelo então governador Miguel Arraes. Este quadro hoje é meu. Mas meu avô gostava era de ser tratado como professor, título que prezava mais que o de julgador, que sabia ser transitório. O ofício de ensinar o apaixonava de tal maneira, no curso de direito da Unicap, que meu avô se negava a reprovar a quem quer que fosse, convicto de que, se o aluno não rendia em sala de aula, acabaria inevitavelmente reprovado na escola da vida. Abraçou a advocacia criminal por quase quatro décadas, sempre estudando a fundo os dramas humanos, estreando como advogado em um júri em 1948, chegando à marca de 223 Júris no ano de 1984.

E era de fato no plenário do júri que, segundo sempre ouvi de outros, meu avô Antônio se transformava na defesa de seu cliente, pouco importanto de quem se tratasse, mesmo que carregasse a pecha de "inimigo do Estado". Aliás, a atuação em favor dos chamados "subversivos" e "personas non gratas" do regime de 64, entre eles dom Hélder e o próprio Arraes, lhe rendeu uma prisão de alguns dias na então Casa de Detenção, atual Casa da Cultura. Este episódio meu avô contou em livro (Em defesa da liberdade), de cuja narrativa transcrevo: "Como a advocacia criminal constitui a vanguarda na defesa das garantias individuais, é explicável que os criminalistas sejam os primeiros profissionais atingidos, em todos os movimentos revolucionários, pelos atos de puro arbítrio e violência sádica. Mas os atos de arbítrio e violência servem apenas para envergonhar os netos de seus autores. O que fica mesmo na história é o gesto de bravura cívica dos que fazem e honram a advocacia criminal". Despediu-se citando o poema Testamento, de Deolindo Tavares, que diz assim: "E já que vivi deste céu, deste mar e deste mundo, deixo a este céu, a este mar e a este mundo uma gaveta onde estão trancados poemas imortais".

Hoje, portanto, aos 36 anos, revisitando as lembranças daquele 23 de abril de 1991, renovo a certeza de que, a encabeçar estes poemas imortais citados por Deolindo Tavares, como sendo o mais belo deles, está a própria existência de meu avô, um homem verdadeiramente excepcional.

A bênção, meu avô.
Voltar