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Publicado no Jornal do Commercio - 10.08.2011
Notícias da imprensa dão conta de que o Consulado do Brasil em Buenos Aires recomenda "enfaticamente" em seu site que os brasileiros evitem viajar para a Argentina, principalmente Bariloche e Ushuaia, enquanto as cinzas do Puyehue estiverem afetando o espaço aéreo. E acrescenta que a LAN só deve voltar a operar no dia 15. O Brasil é país abençoado por Deus. Se, por um lado, é o paraíso dos ladrões impunes, por outro não tem vulcão, terremoto e tsunami. Não é porreta?
O brasileiro que acha chique passar a lua de mel em Buenos Aires conhece bem a terra onde nasceu? Já fez alguma viagem de navio subindo ou descendo o Rio Amazonas, o maior do mundo, com escalas em Manaus, Parintins, Óbidos, Santarém e Belém do Pará? Mergulhou nas águas mornas de Muriu, Ponta Negra e Pirangi, no Rio Grande do Norte? Visitou Olinda, Ouro Preto, Sabará, São João del Rei, Parati, a região fluminense dos antigos casarões dos barões do café? Salvador e suas igrejas, conventos e terreiros de candomblé? Comeu efó, xinxim de galinha e frigideira de aratu nesses terreiros? Assistiu a uma pesca de xaréu na Praia de Armação? Nadou na Boca do Rio, no Recôncavo baiano? Dançou no Bola Preta, na Estudantina e numa prévia carnavalesca do Cacique de Ramos? Tomou chope na Lapa, ouvindo Tereza Cristina cantar? Passeou no bondinho do Pão de Açúcar e no trenzinho do Cristo Redentor? Assistiu a um ensaio da escola de samba Estação Primeira de Mangueira? Saiu com alguma rainha de bateria ou porta-bandeira da Beija-Flor? Esse tipo de turista conhece Florença, Roma e Paris? Que tal atender o conselho desse cônsul e trocar a lua de mel na Argentina pelas núpcias na Praia do Francês, em Alagoas, ou em Porto Seguro e Itaparica ou Campos do Jordão e Gramado? Essa turma conhece a obra de Aleijadinho e a Igreja de São Francisco, de interior revestido de ouro da Bahia? É ignorância, falta de imaginação ou pura esnobação, pra não dizer frescura? Não tem graça mandar cartão-postal para nossos cronistas sociais, anunciando que os pombinhos curtem a lua-de mel em Garanhuns, que Garanhuns é perto e Gravatá muito manjada. Quanto mais longe e frio, melhor, porque nem Garanhuns nem Gravatá pedem roupas grossas e cachecol.
Pois é, meus amigos e inimigos, o cônsul tem razão. Só não aconselho trocar a fumaça do vulcão chileno pela poluição atmosférica e infernal de São Paulo porque aí seria permutar seis por meia dúzia, como fazem os técnicos do nosso futebol quando substituem um jogador por outro.
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