|
Publicado na Folha de Pernambuco - 04.08.2011
Um grande livro. Esse “O atestado da donzela 2” tem mesmo tudo para ir longe. A partir do próprio título, bela homenagem ao enorme escritor da Academia Pernambucana de Letras, José Nivaldo - de quem José Nivaldo Jr, pelo nome já se vê, resulta filho. Trata-se de continuação da trama original do romance do pai, “O atestado da donzela”, em que um caso de amor e traição se consuma em tragédia com várias mortes. Dando-se agora a sequência dessa história, com os mesmos personagens (os que sobreviveram), a partir das peripécias de Nina, uma fofoqueira profissional que se dá (muito) bem na vida. Tudo sob olhares bestificados da boa gente de Cedro.
Não só isso. Também, e sobretudo, por ser bem escrito. Muito bem escrito. Romance não é para principiantes. Já vi muita gente boa quebrar a cara. E nem todo escritor tem coragem de se arriscar nessa aventura. Fernando Pessoa, para não ir mais longe, fez de (quase) tudo, até argumentos para filmes, e não nos deixou um. J.N.Junior não é principiante, nas artes da escrita, posto já haver nos dado um livro instigante sobre Machiavel. Mas, deste, se poderia dizer que navegava por mares já dantes navegados. Dado se tratar de tema próximo ao Marketing Político - profissão com a qual, desde muitos anos, ganha o sagrado leite dos seus filhinhos.
Como se não fosse pouco, o livro é bem editado pela Bagaço (parabéns de novo, Arnaldo) e tem adequado número de páginas, 200 - o que permite seja lido, na rede, sem maiores problemas. Ainda por cima, o precinho é tipo das Casas José Araújo. Todos atributos, pois, de um sucesso nacional. Será? Depende. Depende de que?, é usual perguntar. “De muitos fatores” - costuma responder, sem explicar, o Ministro Fernando Lyra. Mas que misteriosos fatores seriam esses?, afinal. Aqui, convém começar pelo começo.
Um primeiro problema decorre da hegemonia econômica do Centro-Sul, que se espraia pelo País em uma dominação cultural opressora. Não temos, no Nordeste, uma grande editora de livros. Nem aqui estão as grandes redes de televisão. Nem a sede das grandes revistas de circulação nacional. Nem dos jornais considerados “nacionais”. A opinião pública do País não se forma por aqui. Sem esquecer, como subproduto inevitável, o compadrio entre os que fazem essas televisões, essas revistas e esses jornais, muitos deles com livros na praça. Dado-se então uma conspiração entre amigos que é capaz até de permitir que livros medíocres, à força de tantos elogios (nem sempre sinceros ou merecidos), tenham tiragens expressivas. Em contrapartida pode-se afirmar, dos tantos bons livros nordestinos, que muitos deles acabam tendo vida mais curta do que deveriam. Morrem na praia, como se diz.
Outro problema é quem põe o livro nas livrarias. J.N.Junior vai conseguir vender o seu em algumas poucas da Cidade, as de sempre. Na do aeroporto, duvido muito. Se tiver sorte, em um ou outro ponto de venda fora deste circuito. O que nos faz tentar imaginar por que as editoras regionais ainda não se articularam em uma grande central de distribuição que possa quebrar esse círculo vicioso.
Por fim, last but not least (como diz esse pessoal que estudou fora), acabamos culturalmente dependentes de uma como que matriz de denominação. Talvez até sem pressentir, muitos de nós se consideram como eles nos consideram. Inferiores. Vivendo uma espécie de “complexo pé-de-chinelo”, com sensível redução dos níveis de autoestima. No íntimo, é como se pouco a pouco fôssemos nos dispondo a aceitar que produtos estrangeiros tenham sempre mais qualidades que os similares nacionais. E como se os do Sul sejam sempre melhores que os nossos. Entre esses, livros. E quem está no ramo sabe como é difícil romper esse preconceito. Como é difícil!, meus senhores.
Seja como for, é preciso superar esse roteiro infausto. Evitando que a gente tenha que fazer lançamentos em São Paulo, ou no Rio, mesmo antes de em nossa terra. Um horror. De parte isso, alvíssaras, temos um grande livro de um grande escritor. Parabéns para o autor, claro. E para todos nós leitores, também. Só que, nesse ponto em que chegamos, a pergunta é mesmo inevitável - Será um sucesso de vendas? A resposta é a de sempre. E só pode ser uma. “Depende”.
|