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Publicado no Jornal do Commercio - 03.08.2011
Quando Tim Maia queimou um show no Plataforma, tentaram arrancar uma declaração de Chico Ricarrey, dono da churrascaria, esculhambando ele. Tinham vendido todas as entradas do evento e o prejuízo do espanhol foi enorme, mas ele respondeu, do alto de seu pedestal de empresário e homem da noite: "Não é problema, os artistas são diferentes de nós, pobres mortais". Isso faz muitos anos e nunca esqueci.
Quando Amy morreu, lembrei dessa frase do gringo. É frase de muita sabedoria. O que se pode exigir de uma intérprete genial como ela? Que acorde, tome café com leite e papinha, vá à missa, volte pra casa, almoce, tire uma sesta e vá cantar à noite, de terço na mão e cara limpa? Qual cantor não toma seu uísque antes de se apresentar em público? O próprio Chico Buarque não gosta de shows. O grande Orlando Silva injetava na coxa, por cima da calça, morfina antes de enfrentar as multidões, embora tenha negado a dependência até o fim. Elis Regina e Cássia Eller apagaram numa overdose, pra ficarmos só nas brasileiras.
A genialidade que Deus lhe deu mexia com ela. Tinha consciência de seu enorme talento - e isso pesa. Não é fácil segurar a barra. Não quero justificar esse comportamento nem recomendar droga. Vinícius de Morais dizia que estamos sempre aquém da terceira dose. Mas o corpo termina fraquejando, e a saúde, pifando. Só é bom enquanto dura. Ela foi definhando, visivelmente, pouco a pouco. Foi secando. E como a droga leva à sarjeta, nem dos dentes cuidava. Meu caso com Amy Winehouse foi de amor à primeira vista. Quando minha filha Mamá botou seu DVD na TV, notei que estava diante de uma cantora extraordinária. Mais que isso: personalíssima. Sua bela voz, possante e afinada, não se parecia com nenhuma outra. Foi o que mais me impressionou. Sua incrível postura no palco, também. Com ela, tive a mesma estranha sensação experimentada quando li Grande sertão: veredas. Passei um tempo sem conseguir produzir nada. Que mistério era aquele? Como um escritor podia escrever daquela maneira? Os outros autores não tinham mais graça para mim. Depois do DVD de Amy, eu não curtia nenhuma cantora - a única que ainda suportava era o furacão Ivete Sangalo, pela sua exuberância em cena. Uma pessoa que nos deu tanta alegria e enlevo merecia a vida atormentada que teve? Esse é outro segredo que até as religiões tentam explicar. Cada um segue seu destino. Não há como fugir dele. Seu pai disse uma coisa muito linda na hora da despedida: "Boa noite meu anjo, durma em paz."
P.S. A propósito, esta pérola de Jomard Muniz de Britto, no e-mail A morte máxima de Amy Winehouse: "Eles fingiram morrer aos 27 anos porque sabiam pela inconstância da alma não existir nada de novo para apreender".
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