A Estética do Cangaço - Antônio Campos

Publicado na Folha de Pernambuco - 30.08.2010

Tive a ale­gria de par­ti­ci­par, na úl­ti­ma quin­ta-feira, do lan­ça­men­to da nova obra do es­cri­tor Frederico Pernambucano de Mello. Ele, com sua au­to­ri­da­de in­te­lec­tual de gran­de pes­qui­sa­dor da te­má­ti­ca do can­ga­ço, reu­niu in­for­ma­ções, dados e cu­rio­si­da­des sobre a im­por­tân­cia das ves­tes dos can­ga­cei­ros na árdua ro­ti­na dos “guer­rei­ros do ser­tão”. O livro Estrelas de couro: a es­té­ti­ca do can­ga­ço, pu­bli­ca­do pela edi­to­ra Escrituras, con­tou com va­lio­so pre­fá­cio de Ariano Suassuna.

Pernambucano foi ape­li­da­do por Gilberto Freyre, com quem tra­ba­lhou du­ran­te 15 anos, de “mes­tre de mes­tres em as­sun­tos de can­ga­ço”, faz um re­la­to de­ta­lha­do do iní­cio do can­ga­ço, ro­ti­na dos can­ga­cei­ros, a re­li­gio­si­da­de, até o con­cei­to e con­tex­tua­li­za­ção dos tra­jes por eles uti­li­za­dos. Além des­ses temas, Fred vai bus­car o por­quê de sím­bo­los como o signo de Salomão, cruz-de-malta, da flor-de-lis, do oito dei­ta­do - con­si­de­ra­do por ma­te­má­ti­cos e cien­tis­tas como a re­pre­sen­ta­ção do in­fi­ni­to - e de vá­rios ou­tros de­se­nhos e com­bi­na­ções. São cores de uma aqua­re­la que visa pin­tar a ima­gem, um tanto quan­to vai­do­sa, de ho­mens com es­pí­ri­to guer­rei­ro e cren­tes em uma pro­te­ção mís­ti­ca.

A im­pres­são que tive ao ler o livro de Fred Pernambucano é que tudo aqui­lo que pa­re­cía­mos saber sobre o can­ga­ço não é exa­ta­men­te a rea­li­da­de desse im­por­tan­te mo­vi­men­to bra­si­lei­ro. A fé dos se­gui­do­res de Lampião e de tan­tos ou­tros lí­de­res é mos­tra­da como algo sa­gra­do para os “nô­ma­des ser­ta­ne­jo­s”. Orações cris­tãs, amu­le­tos, figas, san­tos e vá­rios ri­tuais de me­di­ta­ção fa­ziam parte da cren­ça pre­sen­te no mo­vi­men­to.

Outro de­ta­lhe que me cha­mou aten­ção foi o fato de nunca ter­mos pres­ta­do aten­ção em cada um dos in­con­tá­veis de­ta­lhes das rou­pas tí­pi­cas do can­ga­ço. Os cha­péus, mui­tas vezes, com bo­tões de ouro e prata; as cal­ças cos­tu­ra­das com te­ci­dos re­sis­ten­tes e ao mesmo tempo ma­cios; as car­tu­chei­ras, que mais pa­re­ciam cin­tos lar­gos de couro bor­da­do, mas que ser­viam na rea­li­da­de para guar­dar facas e mu­ni­ções e os vá­rios mo­de­los de san­dá­lias e sa­pa­tos de couro são al­guns dos vá­rios com­po­nen­tes dessa “fan­ta­sia de luta”.

A obra Estrelas de couro: a es­té­ti­ca do can­ga­ço faz uma pro­fun­da via­gem nesse uni­ver­so cul­tu­ral des­co­nhe­ci­do, atra­vés da lei­tu­ra do re­quin­te e dos sig­ni­fi­ca­dos pre­sen­tes nas au­tên­ti­cas ves­ti­men­tas dos can­ga­cei­ros. É o re­sul­ta­do da de­mo­ra­da, mas fas­ci­nan­te pes­qui­sa desse, de nome e de alma, gran­de pes­qui­sa­dor e his­to­ria­dor per­nam­bu­ca­no, que fica nos de­ven­do o Museu do Cangaço como o seu pró­xi­mo de­sa­fio.