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Publicado no Jornal do Commercio - 26.08.2010
No início do século 19 Pernambuco era uma célula revolucionária. Os padres insurretos do seminário de Olinda tramavam catequeses com o mesmo desembaraço com que urdiam revoluções. Pudera, a coroa portuguesa, avara em projetos para a colônia, ocupava-se em dilapidar as nossas riquezas e em cobrar o "quantum" devido ao senhorio real, pelo vassalo. Ventos libertadores sopravam da América e da Europa, ainda bem vivas as lições da Convenção de Filadélfia e do enciclopedismo francês, que se viram importados pelas sotainas negras, a conspirar do alto da colina de onde Duarte Coelho temperou sonhos de ocupação e de conquista. O breviário na mão e a pistola oculta nas diocesanas vestes: eis a atitude do clero ante a intolerância de Portugal. Para a gema da nacionalidade era inaceitável, 100 anos após o grito precursor de Bernardo Vieira de Melo, a condição de mediocridade a que se submetiam as províncias, começando a ganhar força a ideia de libertação. Pernambuco sempre fora irredento. Em 1600 já era o maior exportador de açúcar do mundo. Em 1630 era invadido pelos holandeses, aprendendo com os invasores, que desperdiçaram parca munição, quando tiveram seus canais invadidos por exércitos estrangeiros. Do príncipe alemão, Nassau, colheu seu amor pelas artes e pelas ciências. A sede de liberdade, ao revés, é mercadoria nativa, aprendida com a expulsão dos invasores flamengos e na pregação dos rebeldes da clausura, mas havida antes nas contas de pau-brasil, cujo encarnado marcou as densas florestas da nacionalidade.
É este patrimônio que de tão inflamado provocou a dura reação dos monarquistas quando eclodiu a Revolução Pernambucana. A silhueta magra de Pernambuco, sangrado em seu território, é o maior símbolo do seu espírito libertário.
Assim foi com o filho do tanoeiro, Frei Caneca, na Confederação do Equador, na Revolução Praieira e em todos os momentos de sua história política. Pernambuco hoje vive um momento de resgate de suas melhores tradições. O Leão de Lucerna, docemente ferido, vê-se animado a voltar a rugir. Politicamente vem recuperando a sua voz ativa. Fala e é escutado pelo Brasil. Assim foi na discussão sobre o pré-sal em que liderou a reação ao modelo monopolista e injusto. Tem sido assim também na captação de recursos vultosos que melhoram a vida do povo, como mostra de que empresta o seu prestígio político em troca de investimentos e não com a mercancia habitual em torno de cargos, dissociados de interesses estratégicos. Do ponto de vista econômico revelam-se índices animadores: na geração de empregos, na atração de investimentos, na execução de empreendimentos estruturadores, como a refinaria, o cluster naval, a Transnordestina e a transposição.
É esta tradição que nos faz herdeiros de uma atitude que deve ser cuidada pelos nossos líderes, já que somos vocacionados para a largueza de visão e de propósitos. A agenda do futuro pede o respeito pelo nosso passado. A julgar pela história, estamos salvos. A cidade do Recife chamou-na Ronildo Maia Leite, invicta.
A Pernambuco, não há outro nome, devemos chamar, por justiça, a Província Rebelde!
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