De salto alto - João Humberto Martorelli
Publicado no Jornal do Commercio - 26.08.2010

Nada é mais chato e aborrecido do que acompanhar uma mulher montada em sapatos de salto, principalmente em superfícies desniveladas, se você está com pressa, então... Nessas ocasiões, normalmente solenes e festivas, pois o salto, nelas, é de rigor, a mulher já atrasou enormemente a saída de casa para a maquiagem, para meter-se no vestido e para calçar o salto que, sem dúvida, servirá de base a sapatos apertadíssimos, dos quais ela se queixará dentro do carro, quase ameaçando voltar para trocá-los, pois exatamente nesse dia em que você chega à importante solenidade atrasado, o trajeto entre o estacionamento e o local de destino é sobre paralelepípedos ou, pior, pedras portuguesas, com aquelas reentrâncias prendendo o salto a cada dois passos e o braço de sua mulher sustentando-se no seu, não no gesto amoroso e clássico de repouso, o braço masculino servindo, na verdade, de barra para a equilibrista na corda bamba, e todo o peso dela entortando sua coluna.

Era tudo o que eu pensava do salto alto, até me deparar com matéria sobre a sua história na revista britânica Glass. O salto alto apareceu no mundo da moda após a Segunda Guerra Mundial, quando as tradições passaram a ser consideradas irrelevantes e os governos iniciaram uma campanha para incentivar as mulheres a voltarem para casa a fim de aumentar a população e devotar a existência a seus maridos novamente, porém, em tal estágio, a revolução feminina já tinha começado e não mais retrocederia. Com as barras da saia subindo, os tornozelos femininos à mostra, o calcanhar passou a ser a nova zona erógena e surgiu o sapato para realçá-lo, em substituição aos antigos sapatos e tamancos de madeira, com o salto alto bem fino e sustentado por um filete de metal (stiletto) logo sendo desenhado por Roger Vivier. Com a imediata adesão de celebridades como Grace Kelly e a rainha Elizabeth II, que encomendou um sapato de salto alto em ouro incrustado de rubis para sua coroação, tornou-se o símbolo do estilo e da sofisticação.

A nova moda e o sexo passaram a andar juntos desde logo. Antes do surgimento do design de Vivier, nos idos de 1950, tinham aparecido pornografias e histórias eróticas, o salto alto destacando-se na imagem da mulher fatal com chicote na mão. Psicanalistas passaram a ver o sapato como um símbolo fálico e a plataforma do stiletto como o desejo de posse do órgão masculino pela mulher, outros identificando no uso torturante do salto alto um prazer sadomasoquista.

Acredito na última teoria. O salto alto é, sem dúvida, fruto de profundo e doentio sadomasoquismo feminino, sadismo porque a mulher que dele faz uso tortura a vida de qualquer homem, masoquismo porque não há quem me convença de que aquilo não seja o cúmulo do desconforto. Sem prejuízo dessa teoria, ele tem uma finalidade prática que a história não revela: aumentar a estatura feminina. Ou seja, surgiu da necessidade de a mulher aparentar ser mais alta do que realmente é. Mais do que isso, ao aumentar a estatura feminina, dá ao corpo que é suspenso um balanço diferente, que alonga as pernas, empina o busto e salienta as nádegas, tornando a figura feminina completamente graciosa. De fato, devo reconhecer, a mulher que sabe andar de salto alto (não aquela que se agarra ao braço do marido como a uma barra de equilíbrio) se torna leve, sensual, flutua, o olhar se perde em um ponto qualquer do infinito. Não podemos esquecer, entretanto, que o salto alto é uma plataforma artificial para o calcanhar e seu uso constante pode deformar e causar dores terríveis, além dos perigos de tropeçar e escorregar.

Fico me perguntando por que Dilma fez questão de declarar que vai evitar o salto alto diante da folgada dianteira nas últimas pesquisas eleitorais. O salto alto tem esta força de expressão: quando se está no alto ou à frente, não se deve desprezar o adversário, sob pena de tropeçar, de modo que a declaração é propósito de humildade. Mas vista a real história do apetrecho, é diferente a perspectiva nesta campanha eleitoral, sendo ele absolutamente essencial para dar aparência de maior estatura da que a candidata realmente tem. A plataforma de Lula foi e é indispensável para dar-lhe dimensão política, e até Serra quis usar a mesma plataforma, em um dos maiores e mais flagrantes episódios de burrice, oportunismo e sadomasoquismo eleitorais já testemunhados. Uma coisa é certa: Dilma não sabe é andar de salto alto, muito menos flutuar, e Lula é o braço do marido que a sustenta no terreno pedregoso da campanha, bastando uma pequena desatenção para o salto enfiar-se na fenda da pedra e dali não mais sair.