Um hospital charmoso - Arthur Carvalho
Publicado no Jornal do Commercio - 25.08.2010

Oxente! E existe hospital charmoso? - Pergunta Francisco Jardim, delegado de escol, cidadão de categoria.

Existe, sim: o Jayme da Fonte. Não conheço hospital mais aconchegante e simpático do que o Jayme da Fonte, talvez por me sentir sentimentalmente ligado a ele. Fui morar na velha Capunga em 1953. Dois anos depois, o médico Jayme da Fonte, figura lendária do bairro, fundou o hospital com seu nome. Empresário visionário e à frente do seu tempo, Jayme viu que além do antigo Pronto Socorro, estabelecido na Rua Fernandes Vieira, e antecessor do Hospital da Restauração, da rede pública, não havia no Recife unidade hospitalar particular com atendimento de urgência, e fundou o Jayme da Fonte. Interessante é que assim o fez contra a opinião unânime da família, que achava a ideia uma temeridade.

Inaugurado em 1955, o Hospital Jayme da Fonte passou a ser o da moda no Recife. Quem tinha bom poder aquisitivo corria para sua emergência. Mas Jayme, homem de bom coração, não deixava de atender os humildes necessitados, um dos motivos que o fizeram estimado na Capunga. Lembro que certa vez (faz muito tempo), um amigo meu, levou um tiro de um soldado da Rádio Patrulha, em pleno salão do Country, num grito de Carnaval, foi socorrido imediatamente pelo clínico geral Domingos Cruz (pai do cardiologista Henrique Cruz), que recomendou sua remoção para o Jayme da Fonte, onde foi operado pelo cirurgião Eduardo Wanderley, com sucesso, recebendo alta uma semana depois.

O hospital progredindo, inauguraram, no mesmo prédio, a Farmácia Jayme da Fonte. Era a primeira farmácia da cidade aberta 24 horas por dia. O engenheiro civil capunguense Paulo Martins, intermediou a autorização com Oscar Amorim, presidente da Associação Comercial, e Cid Sampaio, presidente da Federação da Indústria, para permitir que a farmácia funcionasse sem porta. Nessa farmácia, comprei muitos tubinhos de Perventin, as célebres "bolinhas", para virar a noite acordado, estudando para o vestibular de direito da Federal, com Artur Coutinho, Ricardo de Paula Lopes, Fernando Gondim e Olympio Costa Júnior, no terraço de nossa casa.

Paulo da Fonte, irmão de Jayme, e excelente figura humana, abriu, junto à farmácia, a Livraria Paulo da Fonte, que, além de livros, vendia jornais do Sul, atraindo clientes da "inteligência" recifense que por ali passavam, ao cair da tarde, para ler notícias frescas e importantes do Brasil e bater papo com Paulo, de quem me tornei amigo, e Renato Carneiro Campos, também morador das Graças, o elegeu "Prefeito da Capunga", em memorável crônica no DP.

Passados 55 anos de seu nascimento, o Hospital Jayme da Fonte, dispondo de urgência cardiológica, clínica e cirúrgica, serviços de imagem, centro diagnóstico para consultas e exames, bloco com seis salas de cirurgia, UTI geral e de dor torácica, novos apartamentos com wi-fi zone, extensa rede de convênios e amplo estacionamento próprio, equipe médica e de enfermagem competentes, firma-se, cada vez mais, no cenário ainda precário e deficiente da rede hospitalar do Estado, sob a superintendência dinâmica e serena do médico Antônio da Fonte, filho de Jayme, conhecido na Av. Beira-Rio da Madalena, onde caminha diariamente, como Comandante Antônio, ou Tatá, para os íntimos, tudo sob as bênçãos da matriarca do clã, dona Creuza Meira da Fonte, mais lúcida do que nunca.