Publicado no Jornal do Commercio - 22.08.2010
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“Por que o nordestino sai do seu habitat e vem para o Brasil?" A frase não é minha. Foi proferida pela candidata Dilma Rouseff revelando, possivelmente, um ato falho.
As análises políticas são mais complicadas do que se imagina. Bem merece um "passeio pela vida" como diria - a respeito das minhas crônicas no JC - a inteligente jornalista Rosa Miranda. Principiaria pelo cotejo entre o amor entre os seres humanos e o amor entre o político e o povo. Seguiremos esta trilha um tanto íngreme e arriscada.
No Banquete, Platão declara que o objeto do amor deveria estar sempre ausente. O que se ama é somente aquilo que não se tem. Escolho outra interpretação: com o simples passar do tempo, uma pessoa se transmuda aos olhos de outra e é melhor deixar o sonho e a imaginação intangíveis. Tal sucede em diferentes campos: nas amizades mais simples, na relação amorosa, na política... Difícil é encontrar a necessária explicação para este fenômeno. Indago: Será que o tempo muda a substância do homem? Será que o ser humano é portador de uma necessidade absoluta de idealização do outro e os anos se encarregam de corroer as ilusões e impor uma realidade não desejada que há que recriar como vida? Ou a convivência exige o emprego da simulação para se harmonizar com os nossos ideais, necessidades e carências?
Principiemos pela relação amorosa. Penso que a frase é de Baudrillard: desobedecer a si mesmo é o estádio final da liberdade. O encontro de duas pessoas tem muito de aspiração de revelar apenas a face ambicionada ou anelada pelo parceiro. O que domina ou governa é o desejo de impressionar o outro, daí o recurso à simulação/dissimulação como regra. Mas chega, inexoravelmente, o dia da exaustão, do cansaço e da necessidade de libertação. Esperamos ser amados apenas pelo que somos. E sem a presença de máscaras.
Imaginemos, contudo, uma hipótese improvável: os homens não sonegam a verdade, a culpa é exclusivamente do tempo. É o nosso corpo e os nossos pensamentos que envelhecem, são as nossas fantasias e projetos de vida que se alteram, são as circunstâncias econômicas e sociais que vão contribuindo para a degeneração do afeto. O correto, nesse caso, seria a acolhimento da ideia de que a paixão foi convertida pelo tempo em solidariedade, camaradagem, cumplicidade, etc. Mas é ainda possível uma solução desafiadora do tempo: Viver a permanente busca do inexistente ou do sonho ingênuo, acumulando as sucessivas frustrações e recomeçando tudo, sem jamais chegar ao porto almejado. Descobre-se, afinal, que a relação para ser eterna não prescinde da tragédia e do obstáculo ou impossibilidade. A história e a literatura nos oferecem os exemplos: Pedro e Inês, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Otelo e Desdêmona, Rick e Ilsa no filme Casablanca. Ainda assim há quem desacredite na possibilidade de ruptura do ciclo vital da relação: apaixonar/desapaixonar-se. Por certo há outras formas de dizer não ao tempo: a brincadeira do faz de conta... No final, tem-se a solidão e as mãos cheias de nada.
Seria tudo igual no universo da política? Vejo a relação povo-político como algo que prescinde de bilateralidade. O povo pode amar o político, mas o amor do político pelo povo é algo poroso, estranho... Quando existe e é genuíno - é um amor ideológico, mesmo então não liberto de projetos pessoais. A oclusão ao idealismo e o quase total descaso pelo homem concreto e pelo bem comum é a regra. Prevalecem os interesses e o poder - fonte de riqueza e de status.
O político passa a ser uma imagem, hoje construída por refinados profissionais. Diferente da relação entre duas pessoas, o ser político não aspira à liberdade. Eis a grande diferença. Por isso jamais porá a descoberto a sua verdadeira personalidade. Chegará o dia em que, já cansado de tudo, sequer conseguirá descobrir o que foi e o que é. Morrerá como a persona dos antigos teatros gregos. A máscara aderiu de tal forma ao rosto que já não pode ser retirada. E é assim que se forjam e consagram os grandes mitos.
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