Qualidade de vida - Arthur Carvalho
Publicado no Jornal do Commercio - 18.08.2010

Um neurocirurgião me contou que, dirigindo um carro alugado na cidade de Colônia, Alemanha, parou em cima da faixa de pedestre quando o sinal fechou. Veio o guarda, "que parecia um guarda-roupa", pediu-lhe os documentos e, quando viu que sua habilitação era do Brasil, irritou-se: "Brasil! Brasil! Logo vi!" Tirou uma caderneta do bolso, aplicou a multa e ameaçou: "Da próxima vez, o senhor será preso, e seu carro, rebocado."

Pelos anos 60, morava no Farol da Barra, na Bahia, um coronel do Exército muito popular conhecido como coronel Lúcio. Ele me revelou que quando o general Amaury Kruel, ex-comandante do 2º Exército, era major e foi fazer um curso de extensão nos Estados Unidos, estava trafegando em alta velocidade, numa ponte, e foi seguido por dois policiais em motocicletas que o obrigaram a parar. Ato contínuo, quando um deles começou a preencher o talão de multa, solicitou o documento de identidade de Kruel, e, ao verificar que se tratava de oficial do Exército, disse-lhe que a multa seria acrescida de 20%, "tendo em vista ser ele autoridade", de acordo com o Código de Trânsito de lá.

A artista plástica Denir de Melo, residente na Suíça, veio passar férias no Recife e ficou perplexa com as barbaridades cometidas pelos motoristas daqui. E me disse que, certa vez, entrou, montada na sua bicicleta, numa contramão de Zurique, logo veio o soldado, multou-a e ameaçou apreender a bicicleta se ela repetisse a infração. Ela tem dupla nacionalidade: brasileira e suíça, mas, na hora, apresentou a identidade brasileira, numa tentativa de se livrar da sanção, o que não colou – e recebeu de volta do inspetor um risinho de deboche.

São muitas as histórias de brasileiros que sofrem constrangimento no exterior por desrespeito à lei do trânsito. Infrações que aqui não têm o menor valor, na Europa e nos Estados Unidos são consideradas gravíssimas.

Segunda-feira retrasada, dia 9, à noite, levei uma hora e quarenta minutos da Rua da Aurora para a Avenida Beira-Rio, na Madalena. Estava chuviscando e basta isso para o trânsito parar – trechos onde os automóveis, simplesmente, não andavam. Não dá para passar nem segunda. Nesses momentos não se vê um guarda, e os sinais começam a quebrar. Recentemente ouvi entrevista em uma rádio de um engenheiro de trânsito do Detran. Ele confessou que o caos no trânsito do Recife tende a piorar com a matrícula de cerca de cem veículos por dia.

Subo ao 26º andar do edifício onde moro, me espanto com a quantidade de prédios em construção nos bairros da zona norte, e me pergunto quantos automóveis serão acrescentados às ruas do Recife quando esses edifícios ficarem prontos. Não conheço nenhum planejamento técnico para enfrentar o grave problema. O leitor conhece?

Quando se fala em qualidade de vida, considera-se, entre outros fatores, morar bem e o mais perto possível do trabalho. Casa Forte, por exemplo, ainda é aprazível, embora muito sacrificado com a febre imobiliária. Das seis e meia às oito da manhã, o morador de Apipucos, Dois Irmãos, Casa Forte, Monteiro e Poço da Panela gasta quanto tempo para chegar ao Marco Zero? E quem reside em Piedade e Boa Viagem? Quantos sinais e engarrafamentos esse motorista enfrenta de sua casa para o centro da cidade?