Pantomima - Clávio Valença
Publicado no Jornal do Commercio - 17.08.2010

Décio Valença Filho doou-me despretensioso CD, gravado no interior do automóvel, durante viagem Recife/São Bento, na qual seu pai, talentoso conversador, narrou causos por ele vividos ou ouvidos, sempre em torno de pessoas ou das municipais paragens da terrinha.

Por mais me agrade, não estou seguro de que a enorme competência do contador para o que se propunha, desperte o interesse do leitor, a ponto de me permitir algumas transcrições. Tampouco tenho a pretensão de fazer a crítica, para o quê faltam-me as ferramentas. Deixo a tarefa aos teóricos da matéria, provenientes das escolas de comunicação e cursos de contação de estórias que, hoje, proliferam às dezenas.

Pela atualidade, lembro o ocorrido com um meu ancestral, Tio Quincas, como o chamávamos na intimidade, embora eu tenha nascido já ele finado.

Homem sério, se bem que reconhecidamente violento, tomou ciência da invasão dos pastos de sua fazenda, por gado de vizinho. Identificado o transgressor, e comprovada a transgressão, não pensou duas vezes: dia seguinte, manhãzinha, pois gostava das coisas às claras, munido de um pedaço de madeira, com alguns pregos salientes, dirigiu-se ao local onde as rezes atravessavam o limite da propriedade e, quando o vizinho se apeou do cavalo, impiedoso deu-lhe uma surra, uma sova, de acordo com a linguagem da época, como preferia, por pouco não lhe tirando a vida, salva por interferência dos passantes.

Apesar de se tratar de integrante da elite local, assim como a vítima, o fato não pode deixar de ser conhecido pela autoridade policial. Inquérito concluído, onde nada foi negado, teve início, no Judiciário, o sumário crime, com as detalhadas acusações por parte da vítima e suas testemunhas e a confissão, também detalhada, do acusado. Se a vítima esmerou-se na descrição, o velho Quincas nada negou, exceto quando indagado se havia arrependimento.

Ao juiz, homem aparentemente probo, porém muito amigo dos meus parentes, em cujas casas se hospedava, eis que não instalara residência na urbe e nela não existiam hotéis, pensões ou pousadas, constrangia condenar ascendente de seus anfitriões. Em nada à sociedade aproveitaria a prisão de um homem de bem, justificava-se. Ao Estado, sobrecarregado de encargos, deve-se evitar aqueles pertinentes às grandes populações carcerárias e seus custos financeiros.

O processo se arrastava em tramitação tartaruga, até o próprio acusado clamar pela decisão, o que fez em visita ao magistrado.

Assim, pressionado ou autorizado, Sua Excelência, ouvido o então dócil Ministério Público, sentenciou e, como não poderia deixar de ser, determinou a detenção do agressor por alguns poucos meses, para, em seguida, após longo arrazoado, analisados todos os aspectos da legítima defesa da propriedade, transformar a pena em multa de duzentos mil réis.

Intimado da decisão, o agora condenado dirigiu-se ao cartório, fez o depósito do valor, em moeda corrente, e um único comentário: Saiu barato. Se voltar a furar minha cerca, o safado vai levar uma pisa de quatrocentos pra lá.

Os fatos acima me levaram a lembrar filmes antigos que traziam, sempre, um aviso anterior ou posterior à exibição da película: Qualquer semelhança é mera coincidência.

Pois bem, estou certo de que, diante das penalidades que lhe impõe o Supremo Tribunal, e que em nada o afligem, de tão irrisórias, as multas que, provavelmente, jamais pagará, o presidente da República está se preparando para uma explícita campanha, com cacete, de quatrocentos mil réis, com pregos, parafusos e cacos de vidro nos costados dos coitados eleitores contribuintes.

Não há dúvida. Dá saudade de Vandré e da volta da aroeira no lombo de quem mandou dar.